Erros – Parte IV

Entrando em mais um tópico, do qual o assunto é constantemente abordado em críticas literárias, o suposto falecimento do cyberpunk. Afinal, por que ele é tão discutido? Por que tantas pessoas parecem empenhadas em encontrar argumentos para enterrá-lo sob a produção literária? O que mudou na relação entre o público e os autores desde que o cyberpunk perdeu forças? Morto ou não, o que é cyberpunk atualmente?

Voltando a década de 90, o cyberpunk se difundia na cultura pop ao mesmo tempo que a Internet. Os livros que deram origem ao movimento inspiravam filmes, a forma mais acessível de entretenimento, ainda que dependêssemos de nos deslocar até os cinemas e vídeo locadoras. Como citei no post do filme Estranhos Prazeres (1995), no ano de seu lançamento, outros filmes que marcaram as produções americanas também entravam no circuito comercial. Tempos depois, eram reprisados constantemente nas noites da televisão aberta brasileira.

Após a virada do milênio (ou mesmo antes), o hype do cyberpunk já não era mais o mesmo. As discussões sobre as tecnologias virtuais deixavam de ter aquele encantamento de uma ficção e passava a ser algo do cotidiano. Computadores já eram ou se tornavam populares mesmo em países mais pobres. A telefonia móvel era o novo boom do consumismo e a rápida evolução de desempenho dos seus componentes, fornecia cada vez mais variedade de serviços.

Em O Passageiro do Futuro (1992), a realidade virtual e uso de certas drogas deram a um homem com deficiência intelectual, a capacidade de ter uma mente brilhante e poderes incríveis. Na vida real, uma tecnologia como essa nunca chegou a se cumprir. O deslumbramento da relação homem-computador, deixou de ser aquele mundo de possibilidades e aventuras no ciberespaço, e se tornou o que conhecemos hoje: apenas um eletroeletrônico como outro qualquer. Assim, escritores passaram a buscar na biotecnologia e nanotecnologia, elementos que cativassem o imaginário. Mas a atenção dos leitores aprenderam a superar a questão tecnológica, restando apenas a visão pessimista da atualidade, não por acaso, as distopias são o novo hype da literatura.

Tudo aconteceu muito rápido. O movimento mal tinha 20 anos e, na interpretação de nosso cotidiano, já sentíamos vivê-lo. Sendo assim, como tudo que se torna casual em nossas vidas, seu destaque como inovação se apagou das prateleiras das livrarias. Falar de algo que estava consideravelmente próximo de nossa geração, não parecia mais tão excitante. Um forte motivo para acreditar que o cyberpunk morreu desde então.

Mas o movimento cyberpunk era só isso? Acredito que não. A brevidade de sua abordagem tecnológica, pode ter criado uma confusão em quem acredita que isso por si só é capaz de definir gêneros da ficção especulativa. Mas a ficção nunca se tratou da prever o futuro. A ficção é uma forma literária de se abordar algum tema, seja no passado, presente ou futuro. O cyberpunk ainda é uma abordagem de nosso presente. A futurologia, por sua vez, é o que o famoso Ray Kurzweil faz: ensaios de não ficção sobre a tecnologia do futuro.

Se lá fora, tudo isso ocorreu muito rápido, aqui no Brasil, foi ainda mais acelerado. Neuromancer somente foi lançado por aqui em 1991, pela editora Aleph (espero não estar errado sobre isso). Ou seja, houve um menor tempo de reconhecimento das obras para leitores brasileiros, além de se tratar de um tipo de literatura que, de certa forma, é “somente” destinada ao fandom, por conta do baixo número de leitores no país.

Se leitores já eram poucos, o que dizer de escritores? Quem pesquisar por isso agora, vai encontrar uma quantidade muito pequena. Acredito (não tenho certeza) que Santa Clara Poltergeist (1990) tenha sido a primeira obra nacional com características cyberpunk. De lá pra cá, o cenário editorial se mostrou pouquíssimo aberto ao subgênero. Mesmo com o advento do e-book e a publicação virtual independente, o número continua baixíssimo.

Dessa forma, a impressão que temos é fortemente guiada pelo mercado. Mas isso não significa que a produção literária cyberpunk não exista mais. Ela sobrevive “marginalizada” na Amazon, Goodreads, etc; principalmente em língua inglesa. Também encontra vida sob diferentes formas, como música, cinema, seriados, animações e jogos. Mas e o ciclo das grandes editoras? Seria fundamental haver novos títulos largamente comercializados para se fazer notar. Nesse caso, o vencedor do prêmio Hugo Awards de 2003, o romance Carbono Alterado, de Richard K. Morgan, pode ser um dos últimos grandes exemplos. Notícias mais recentes confirmam sua adaptação para uma seriado.

E quanto aos escritores que produziam cyberpunk no início do movimento? A resposta para essa pergunta e diversas outras questões, podem ser encontradas no texto de Lídia Zuin para a revista Somnium, que aborda com muita objetividade a relação dos autores com o público atual. Resumindo: eles estão migrando para outros gêneros.

Por fim, toda essa interpretação sobre o cyberpunk na atualidade, o postcyberpunk, a tecnologia abordada, convergem para uma mesma direção: a sensação de que estamos vivendo-o agora. Mas isso já não acontecia desde a década de 80? Muitas ideias comuns que perambulam na literatura do gênero, já faziam parte da sociedade. Não foi o futuro que se tornou cyberpunk, a realidade desde aquela época já o era todo esse tempo.

Como já disse em outro parágrafo, o gênero influenciou diversas formas de arte além da literatura. Essa subcultura é o seu maior legado, pois transcendeu as páginas dos livros. Quando anunciaram sua morte, nada mais fizeram do que romantizar um simples fato: ele não é mais o produto desejado.

Infelizmente, para a grande mídia, o cyberpunk ressurgirá apenas em momentos específicos, quando uma obra ganhar seus 15 minutos de fama. Pude observar bem isso, quando anunciaram a produção do seriado do livro Carbono Alterado, diversas pessoas passaram a buscar pelo produto, que mal havia sido resenhado em sites brasileiros, e acabavam descobrindo mais informações sobre ele aqui no Cyber Cultura. Porém, como todo evento movido por grandes massas, o interesse é bastante superficial. Cerca de só 10% das pessoas se interessaram em ler a resenha sobre ele. Ou seja, saber um pouco sobre quem era o autor e a sinopse da obra bastou para a maioria.

Por fim, algo que percebo ser pouco discutido, é a baixa quantidade de clássicos publicados no Brasil. Esse argumento não é válido somente para um tipo de ficção especulativa, mas a todos. Isso só está começando a ser alterado recentemente. Um pequeno alívio para o fandom nacional. Talvez, se tantos autores que ajudaram a compor o movimento e, principalmente, aqueles que vieram antes com idéias geralmente chamadas de proto-cyberpunk, forem publicados por editoras grandes como a Aleph ou outras, esse conceito de “morte” pode ser interpretado de outra forma. Não se enterra uma geração de escritores e artistas, em vez disso, eles se tornam parte da história da cultura de uma geração.

Estranhos Prazeres (1995)

Sinopse:
Nos últimos dias de 1999, em Los Angeles, o ex-policial Lenny Nero (Ralph Fiennes) negocia CDs contendo emoções e memórias de outras pessoas. Quando um disco que contém os últimos registros de uma prostituta assassinada vai parar em suas mãos, sua vida passa a correr perigo. Em meio ao clima de tensão racial que domina a cidade, a revelação do conteúdo do misterioso CD pode ser o estopim de uma incontrolável reação popular.

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Há espaço ainda para o cyberpunk?

Recentemente li uma matéria de Lídia Zuin para a revista Somnium, sobre o espaço que a literatura tem para o gênero da ficção atualmente. Em um de seus argumentos, ela diz sobre o cyberpunk perder o fascínio que tinha sobre os leitores. Além de comentar as opiniões de conhecidos autores dentro do subgênero, que explicam o porque de muitos mudarem para outros subgêneros da ficção. Outro ponto interessante de seu texto, é quando nos é mostrado que o cyberpunk deixou um legado, uma subcultura inteira, provando que ainda esta vivo e influenciando outras áreas além da literatura.

Link para a matéria: http://clfc.com.br/somnium/ha-espaco-ainda-para-o-cyberpunk-por-lidia-zuin/