Dossiê whitewashing: Ghost In The Shell

Passado mais de uma mês após a estreia da adaptação americana de Ghost In The Shell, o calor da discussão finalmente abaixou. Mas afinal, foi ou não foi whitewashing?

Por definição, whitewashing é uma prática da indústria cinematográfica em que atores brancos são escalados para papéis racialmente diferentes ou de etnia estrangeira. O cinema americano realiza isso há tempos e essa lista da Wikipedia pode dar uma ideia de quão comum isso é:

https://en.wikipedia.org/wiki/Whitewashing_in_film#List_of_films

Durante a produção de Ghost In The Shell, muito se especulou sobre o “embranquecimento” de Motoko Kusanagi. Houve até um boato sobre alterar digitalmente o rosto de Scarlett Johansson, para que ela ficasse com traços asiáticos. A desaprovação de parte do público ganhou notoriedade nas redes sociais e uma petição virtual conseguiu reunir mais de 105 mil assinaturas para que a atriz fosse substituída.

Reuni alguns argumentos de ambos lados para expor melhor a situação:

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Podcast Anticast: Pós-Verdade

Um podcast tão intrincado quanto a discussão sobre esse conceito que entrou em voga no final do ano de 2016, a pós-verdade.

Sempre tento estabelecer relações entre possíveis áreas do pensamento com questões abordadas na ficção científica. Pensando nisso, acredito ser de interesse aos fãs do gênero que gostam de uma reflexão mais profunda, um estudo sobre como a pós-verdade se relaciona com a tecnologia de nosso presente, com o comportamento social e as consequências de nos conectarmos diariamente as redes sociais.

Nesse contexto, o cyberpunk pode muito bem representar essa questão comunicativa: entre quantidades imensas de informações questionáveis, a busca pela verdade se confunde em meio a opiniões, movimentando dados virtuais que alimentam diariamente nossos dispositivos tecnológicos, enquanto sites divulgam conteúdo falso apenas para lucrar com publicidade. Esse é o belo resultado de nossa distopia cotidiana.

Podcasts Braincast/Scicast: Inteligência Artificial

Complementando o assunto do post anterior (Construindo o Cyberpunk – Parte III), selecionei dois podcasts que explicam com a profundidade necessária para esclarecer diversos mitos, dúvidas e curiosidades sobre o campo das inteligências artificiais.

O primeiro, Braincast: #207. A Revolução das Máquinas Inteligentes, desmistifica completamente o tema, além de trazer exemplos de como a IA está sendo usada para os mais diversos fins. E tudo isso em meio a uma boa dose de humor.

 

O segundo está dividido em duas partes e se trata do Scicast sobre robótica, que provavelmente é o mais popular desenvolvedor de conteúdo acadêmico da podosfera brasileira.

http://www.deviante.com.br/podcasts/scicast/scicast-001-robotica-parte-1/

http://www.deviante.com.br/podcasts/scicast/scicast-002-robotica-parte-2/

O Manifesto Hacker

Publicado em 1986 sob o título “The Conscience of a Hacker”, o texto que ficou conhecido como O Manifesto Hacker, é uma abordagem do início do movimento, que retrata o espírito da época.

A importância desse texto para o desenvolvimento da cultura e da ética hacker, pode ser melhor explicada pela própria comunidade hacker. Segue o trecho adaptado do site Anonymousbr4sil:

Ele foi escrito após a detenção do autor, e publicado pela primeira vez no ezine Phrack. É considerada uma pedra angular da cultura hacker, e dá alguns esclarecimentos sobre a psicologia de início dos hackers. É dito que isso moldou a opinião da comunidade hacker sobre si mesma e sua motivação. O Manifesto afirma que os “hackers” optam por hackear, porque é uma maneira pela qual eles aprendem, e porque muitas vezes são frustrados e entediados pelas limitações das normas da sociedade. Também expressa o Satori de um hacker percebendo seu potencial no domínio dos computadores.

O Manifesto age como um guia para hackers do mundo, especialmente os novos no campo. Ele serve como um fundamento ético à pirataria, e afirma que há um ponto que a pirataria substitui desejos egoístas para explorar ou prejudicar outras pessoas, e que a tecnologia deve ser usada para expandir nossos horizontes e tentar manter o mundo livre.

O autor do manifesto, Loyd Blankenship, escreveu o texto sob o pseudônimo The Mentor. Mais tarde, Loyd seria chamado para escrever o RPG Gurps Cyberpunk.

Segue o texto em uma tradução livre:

Mais um foi pego hoje, está em todos os jornais. “Adolescente preso por crime de computador”. “Hacker é preso após falsificação bancária”…

Malditos garotos. Eles são todos parecidos.

Mas você, em sua psicologia barata e um cérebro tecnológico de 1950, nunca viu por trás dos olhos de um hacker? Você já se perguntou o que o marcou, o que o forçou, o que pode tê-lo moldado?

Eu sou um hacker, entre no meu mundo…

O meu é um mundo que começa com a escola… Eu sou mais esperto do que a maioria das outras crianças, essa porcaria que eles nos ensinam me entedia…

Maldito estudante abaixo da média. Eles são todos parecidos.

Eu estou no ensino fundamental ou no ensino médio. Eu ouvi os professores explicarem pela décima quinta vez como reduzir uma fração. Eu entendi. “Não, Sra. Smith, eu não mostrei o meu trabalho. Eu fiz na minha cabeça…”

Maldito garoto. Provavelmente copiou isto. Eles são todos parecidos.

Eu fiz uma descoberta hoje. Eu encontrei um computador. Espere um segundo, isto é legal. Ele faz o que eu quero. Se ele comete um erro, é porque eu estraguei tudo. Não é porque não gosta de mim… Ou se sente ameaçado por mim… Ou pensa que eu sou um espertinho… Ou não gosta de ensinar e não deveria estar aqui …

Maldito garoto. Tudo o que ele faz é jogar jogos. Eles são todos parecidos.

E então aconteceu… uma porta aberta para um mundo… correndo através da linha telefônica como heroína pelas veias de um viciado, um pulso eletrônico é enviado, um refúgio contra as incompetências do dia-a-dia é solicitado… uma placa é encontrada.

“Isto é tudo… isto é onde eu pertenço…” Eu conheço todo mundo aqui… mesmo que eu nunca tenha encontrado com eles, nunca falado com eles, e talvez possa nunca ouvi-los novamente… Eu conheço todos vocês…

Maldito garoto. Ocupando a linha telefônica novamente. Eles são todos parecidos…

Pode apostar que somos todos parecidos… temos sido alimentados com comida para bebê na escola enquanto tínhamos fome de bife… os pedaços de carne que você deixou escapar foram pré-mastigados e sem gosto. Nós fomos dominados por sádicos, ou ignorados pelo apático. Os poucos que tiveram algo a nos ensinar, encontraram alunos dispostos, mas esses poucos são como gotas de água no deserto.

Este é o nosso mundo agora… o mundo do elétron e do interruptor, a beleza da transmissão. Nós fazemos uso de um serviço que já existe sem pagar o que poderia ser baratíssimo, se não fosse administrado por gulosos aproveitadores e você nos chama de criminosos. Nós exploramos… e vocês nos chamam de criminosos.

Nós buscamos conhecimento… e vocês nos chamam de criminosos. Nós existimos sem cor de pele,
sem nacionalidade, sem preconceito religioso… e vocês nos chamam de criminosos. Você constrói bombas atômicas, você empreende guerras, você assassina, engana, e mente para nós e tentam nos fazer acreditar que é para o nosso próprio bem, contudo nós somos os criminosos.

Sim, eu sou um criminoso. Meu crime é o da curiosidade. Meu crime é o de julgar as pessoas pelo que elas dizem e pensam, não pelo o que aparentam. Meu crime é o de ser mais esperto que você, algo pelo qual você nunca vai me perdoar.

Eu sou um hacker e este é o meu manifesto. Você pode parar este indivíduo, mas você não pode parar todos nós… afinal, somos todos parecidos.

Texto original em inglês:

http://phrack.org/issues/7/3.html

Ficção Científica Brasileira

Criado especialmente para falar sobre a FC nacional, o blog Ficção Científica Brasileira é o resultado de uma colaboração de resenhistas, autores e editores que antes de mais nada, são amantes do gênero e reconhecem o valor da produção feita por nossos artistas.

Para os amantes de FC, é um canal essencial de informações. Vale a pena acompanhar as resenhas e opiniões.

https://ficcaocientificabrasileira.wordpress.com/

Novos mapas da Pós-Humanidade: a ideia de personalidades ciberneticamente compartilhadas em Emissaries From The Dead e Embassytown

Indo além da tradicional concepção de pós-humano, o autor Fábio Fernandes investiga outras facetas dessa condição tecnologicamente evoluída, deixando de lado os implantes físicos e se voltando a linguagem e a comunicação dentro do imaginário da ficção especulativa. Para isso, ele utiliza de exemplo os livros Embassytown (2011), de China Miéville, e Emissaries From The Dead (2008), de Adam-Troy Castro.

O artigo escrito para a Revista Z Cultural é, além de estudo sobre a comunicação, um belo olhar sobre a ficção especulativa contemporânea. A facilidade com que o autor mescla os temas, se dá pela sua formação e atuação profissional. Graduado em Comunicação (Faculdades Integradas Hélio Alonso), mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e pós-doutorado na ECA-USP, Fábio também é escritor, tradutor, professor e pesquisador. Vale destacar sua contribuição como tradutor, sendo responsável pelas obras de William Gibson, Neal Stephenson, Philip K. Dick e muitos outros.

http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/novos-mapas-da-pos-humanidade-a-ideia-de-personalidades-ciberneticamente-compartilhadas-em-emissaries-from-the-dead-e-embassytown/

Erros – Parte IV

Entrando em mais um tópico, do qual o assunto é constantemente abordado em críticas literárias, o suposto falecimento do cyberpunk. Afinal, por que ele é tão discutido? Por que tantas pessoas parecem empenhadas em encontrar argumentos para enterrá-lo sob a produção literária? O que mudou na relação entre o público e os autores desde que o cyberpunk perdeu forças? Morto ou não, o que é cyberpunk atualmente?

Voltando a década de 90, o cyberpunk se difundia na cultura pop ao mesmo tempo que a Internet. Os livros que deram origem ao movimento inspiravam filmes, a forma mais acessível de entretenimento, ainda que dependêssemos de nos deslocar até os cinemas e vídeo locadoras. Como citei no post do filme Estranhos Prazeres (1995), no ano de seu lançamento, outros filmes que marcaram as produções americanas também entravam no circuito comercial. Tempos depois, eram reprisados constantemente nas noites da televisão aberta brasileira.

Após a virada do milênio (ou mesmo antes), o hype do cyberpunk já não era mais o mesmo. As discussões sobre as tecnologias virtuais deixavam de ter aquele encantamento de uma ficção e passava a ser algo do cotidiano. Computadores já eram ou se tornavam populares mesmo em países mais pobres. A telefonia móvel era o novo boom do consumismo e a rápida evolução de desempenho dos seus componentes, fornecia cada vez mais variedade de serviços.

Em O Passageiro do Futuro (1992), a realidade virtual e uso de certas drogas deram a um homem com deficiência intelectual, a capacidade de ter uma mente brilhante e poderes incríveis. Na vida real, uma tecnologia como essa nunca chegou a se cumprir. O deslumbramento da relação homem-computador, deixou de ser aquele mundo de possibilidades e aventuras no ciberespaço, e se tornou o que conhecemos hoje: apenas um eletroeletrônico como outro qualquer. Assim, escritores passaram a buscar na biotecnologia e nanotecnologia, elementos que cativassem o imaginário. Mas a atenção dos leitores aprenderam a superar a questão tecnológica, restando apenas a visão pessimista da atualidade, não por acaso, as distopias são o novo hype da literatura.

Tudo aconteceu muito rápido. O movimento mal tinha 20 anos e, na interpretação de nosso cotidiano, já sentíamos vivê-lo. Sendo assim, como tudo que se torna casual em nossas vidas, seu destaque como inovação se apagou das prateleiras das livrarias. Falar de algo que estava consideravelmente próximo de nossa geração, não parecia mais tão excitante. Um forte motivo para acreditar que o cyberpunk morreu desde então.

Mas o movimento cyberpunk era só isso? Acredito que não. A brevidade de sua abordagem tecnológica, pode ter criado uma confusão em quem acredita que isso por si só é capaz de definir gêneros da ficção especulativa. Mas a ficção nunca se tratou da prever o futuro. A ficção é uma forma literária de se abordar algum tema, seja no passado, presente ou futuro. O cyberpunk ainda é uma abordagem de nosso presente. A futurologia, por sua vez, é o que o famoso Ray Kurzweil faz: ensaios de não ficção sobre a tecnologia do futuro.

Se lá fora, tudo isso ocorreu muito rápido, aqui no Brasil, foi ainda mais acelerado. Neuromancer somente foi lançado por aqui em 1991, pela editora Aleph (espero não estar errado sobre isso). Ou seja, houve um menor tempo de reconhecimento das obras para leitores brasileiros, além de se tratar de um tipo de literatura que, de certa forma, é “somente” destinada ao fandom, por conta do baixo número de leitores no país.

Se leitores já eram poucos, o que dizer de escritores? Quem pesquisar por isso agora, vai encontrar uma quantidade muito pequena. Acredito (não tenho certeza) que Santa Clara Poltergeist (1990) tenha sido a primeira obra nacional com características cyberpunk. De lá pra cá, o cenário editorial se mostrou pouquíssimo aberto ao subgênero. Mesmo com o advento do e-book e a publicação virtual independente, o número continua baixíssimo.

Dessa forma, a impressão que temos é fortemente guiada pelo mercado. Mas isso não significa que a produção literária cyberpunk não exista mais. Ela sobrevive “marginalizada” na Amazon, Goodreads, etc; principalmente em língua inglesa. Também encontra vida sob diferentes formas, como música, cinema, seriados, animações e jogos. Mas e o ciclo das grandes editoras? Seria fundamental haver novos títulos largamente comercializados para se fazer notar. Nesse caso, o vencedor do prêmio Hugo Awards de 2003, o romance Carbono Alterado, de Richard K. Morgan, pode ser um dos últimos grandes exemplos. Notícias mais recentes confirmam sua adaptação para uma seriado.

E quanto aos escritores que produziam cyberpunk no início do movimento? A resposta para essa pergunta e diversas outras questões, podem ser encontradas no texto de Lídia Zuin para a revista Somnium, que aborda com muita objetividade a relação dos autores com o público atual. Resumindo: eles estão migrando para outros gêneros.

Por fim, toda essa interpretação sobre o cyberpunk na atualidade, o postcyberpunk, a tecnologia abordada, convergem para uma mesma direção: a sensação de que estamos vivendo-o agora. Mas isso já não acontecia desde a década de 80? Muitas ideias comuns que perambulam na literatura do gênero, já faziam parte da sociedade. Não foi o futuro que se tornou cyberpunk, a realidade desde aquela época já o era todo esse tempo.

Como já disse em outro parágrafo, o gênero influenciou diversas formas de arte além da literatura. Essa subcultura é o seu maior legado, pois transcendeu as páginas dos livros. Quando anunciaram sua morte, nada mais fizeram do que romantizar um simples fato: ele não é mais o produto desejado.

Infelizmente, para a grande mídia, o cyberpunk ressurgirá apenas em momentos específicos, quando uma obra ganhar seus 15 minutos de fama. Pude observar bem isso, quando anunciaram a produção do seriado do livro Carbono Alterado, diversas pessoas passaram a buscar pelo produto, que mal havia sido resenhado em sites brasileiros, e acabavam descobrindo mais informações sobre ele aqui no Cyber Cultura. Porém, como todo evento movido por grandes massas, o interesse é bastante superficial. Cerca de só 10% das pessoas se interessaram em ler a resenha sobre ele. Ou seja, saber um pouco sobre quem era o autor e a sinopse da obra bastou para a maioria.

Por fim, algo que percebo ser pouco discutido, é a baixa quantidade de clássicos publicados no Brasil. Esse argumento não é válido somente para um tipo de ficção especulativa, mas a todos. Isso só está começando a ser alterado recentemente. Um pequeno alívio para o fandom nacional. Talvez, se tantos autores que ajudaram a compor o movimento e, principalmente, aqueles que vieram antes com idéias geralmente chamadas de proto-cyberpunk, forem publicados por editoras grandes como a Aleph ou outras, esse conceito de “morte” pode ser interpretado de outra forma. Não se enterra uma geração de escritores e artistas, em vez disso, eles se tornam parte da história da cultura de uma geração.