Dossiê whitewashing: Ghost In The Shell

Passado mais de uma mês após a estreia da adaptação americana de Ghost In The Shell, o calor da discussão finalmente abaixou. Mas afinal, foi ou não foi whitewashing?

Por definição, whitewashing é uma prática da indústria cinematográfica em que atores brancos são escalados para papéis racialmente diferentes ou de etnia estrangeira. O cinema americano realiza isso há tempos e essa lista da Wikipedia pode dar uma ideia de quão comum isso é:

https://en.wikipedia.org/wiki/Whitewashing_in_film#List_of_films

Durante a produção de Ghost In The Shell, muito se especulou sobre o “embranquecimento” de Motoko Kusanagi. Houve até um boato sobre alterar digitalmente o rosto de Scarlett Johansson, para que ela ficasse com traços asiáticos. A desaprovação de parte do público ganhou notoriedade nas redes sociais e uma petição virtual conseguiu reunir mais de 105 mil assinaturas para que a atriz fosse substituída.

Reuni alguns argumentos de ambos lados para expor melhor a situação:

Foi whitewashing

  • O rosto da Major é típico do padrão de mangás enquanto personagens não-asiáticos são retratados com diferentes formatos de rosto, nariz, olhos e sobrancelha, inclusive sendo essa uma característica perceptível no mangá de Masamune Shirow. Na abertura do anime, uma frase revela que os avanços tecnológicos ainda não eliminaram nações e grupos étnicos, portanto os traços físicos permitem associar a aparência dos personagens a determinadas raças/etnias e diferenciá-los. Em uma cena do anime, o corpo usado pela Major aparece ao lado de outro com feições claramente caucasianas. Em entrevista, o diretor da animação de 1995, Mamoru Oshii, apenas teria dito não se incomodar com o whitewashing americano, o que não muda o fato de que a Major é sim asiática. A série Ghost In The Shell: Standalone Complex apresenta personagens não-asiáticos com diferenças tão significativas, que seria impossível não distingui-los dos asiáticos, e um desses personagens se refere a Major, Ishikawa e Batou como “Japs”, uma abreviação para japoneses.

Não foi whitewashing

  • A raça/etina da Major não é importante para a trama. Seu nome (Motoko Kusunagi) seria apenas um apelido que ela adotou como tal, pois ela não se lembra de sua origem e ninguém mais parece saber. Não existe um cânone estrito para a franquia, o que permite certa flexibilidade ao se imaginar elementos que não estão claramente definidos, além de existirem diferentes versões sobre a origem de Kusanagi. Seu corpo robótico já não é uma representação de sua verdadeira indentidade. O pouco de sua pele branca que é exibida de seu corpo original, não é suficiente para concluir se ela é ou não asiática. Alguns detalhes do filme de 1995 diferenciam o corpo robótico da Major de características comuns dos asiáticos, indicando que ela pode ser até mesmo um modelo de aparência híbrida. Na cena do anime em que seu corpo aparece ao lado de uma suposta caucasiana, a única real diferença está na cor do cabelo. Em mais de uma entrevista, Mamoru Oshii declara a influência europeia em sua obra, além de não se importar com a questão étnica, pois do contrário, ele asseguraria a nacionalidade da personagem.

Conclusão

Dentro da investigação realizada por fãs, o resultado foi inconclusivo.

Mesmo assim, a discussão sobre o whitewashing persistiu, talvez porque uma chama que foi acesa na premiação do Hugo Awards 2015, ainda não se apagou. Infelizmente, muito discurso de ódio foi usado para desrespeitar opiniões diferentes nas redes sociais.

Em minha opinião, dois vídeos foram bastante apelativos em meio a essa discussão. O primeiro que gostaria de apresentar, se trata de uma entrevista de opinião com japoneses:

Apesar de visto por quase seiscentas mil pessoas, o vídeo não nos entrega um pensamento crítico sobre como eles (japoneses) se enxergam dentro desse cenário, nem o que pensam da visão dos ocidentais. Além de que a amostra de entrevistados é pequena e pouco variada.

E com uma boa produção dramática, o segundo vídeo apela para o emocional, mostrando os efeitos do whitewashing. Independente da prática ter ocorrido ou não, Ghost In The Shell acabou servindo como bode expiatório para essa questão.

Mas com a estreia do filme, finalmente a situação se resolveu, não é mesmo?! Na minha humilde opinião, não. [AVISO DE SPOILER] Tecnicamente, o corpo de Scarlett Johansson não passaria de um produto industrial abrigando uma mente humana. Como Motoko Kusanagi foi colocada lá sem suas reais memórias, o corpo não representa sua identidade, ele é apenas uma máquina. Assim, a adaptação livrou-se das acusações de whitewashing. [FIM DO SPOILER]

Porém, para aqueles que já não estavam satisfeito com a escolha da atriz, tudo não passou de uma manobra preguiçosa do roteiro para assegurar sua presença no elenco. Isso também acabou por criar a questão da empresa que produz os corpos robóticos, a Hanka Corporation.

Resultado

E qual foi o resultado dessa polêmica? Para o cyberpunk, o balanço final pode ser negativo, pois projetos com temas semelhantes podem acabar sendo desencorajados. Para o estúdio, negativo com certeza, já que a bilheteria não foi muito expressiva e, dependendo da fonte, causou prejuízo. O filme também não fica bem nessa história, pois pode acabar sendo lembrado por isso no futuro. Para o Brasil também não foi legal, pois ganhamos mais uma infeliz adaptação de título (A Vigilante do Amanhã), que subestima o espectador e desconfigura qualquer possível reflexão do conteúdo da obra (sim, títulos bem escolhidos são marcantes e podem contribuir com a experiência de assistir um filme!). Para o público, o resultado é relativo a opinião de cada um. No sentido da obra em si, pretendo abordar em uma resenha após assistir ao filme mais algumas vezes. Quanto a disputa pela razão sobre o whitewashing, apenas serviu para me mostrar como existe preconceito dentro da ficção científica e como muitas pessoas limitam sua compreensão sobre a arte, não a aceitando como uma forma de expressão para questões sociais.

Por fim, a última coisa a se evidenciar da adaptação de Ghost In The Shell, é o RELATIVO poder de contracultura dentro do ambiente virtual, que conseguiu trazer questionamentos ao ponto de desmantelar uma das mais populares estrelas do cinema de nossa década. Claro que esse não é o único motivo para o filme não ter sido um sucesso, entretanto, não deixa de ser uma prova de que a opinião pública não deve ser simplesmente ignorada. Se nem o nome de Scarlett Johansson salvou a bilheteria, os estúdios deveriam começar a repensar suas políticas.


Eu queria indicar as notas dadas no IMDB como parte dessa batalha ideológica, já que em datas próximas a estreia, os pontos estavam concentrados nas notas 1 e 10. Contudo, essa proporção mudou bastante com o tempo e já não é mais uma observação válida.

Em maior parte, essas foram minhas fontes:

https://www.quora.com/Is-Major-Motoko-Kusanagi-from-Ghost-in-the-Shell-Caucasian

http://www.complex.com/pop-culture/2017/03/ghost-in-the-shell-whitewashing-worse-than-thought-possible

https://www.theguardian.com/film/2017/mar/31/ghost-in-the-shells-whitewashing-does-hollywood-have-an-asian-problem

http://www.realclearlife.com/movies/58109/

Anúncios

Deixe um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s