Cyber Brasiliana

Sinospe:
Em uma realidade alternativa, que se desenvolve em um universo pós-cyberpunk, no qual os países do eixo-norte do globo se encontram em decadência, confrontados pelas três grandes potências surgidas no eixo-sul – a União da República Brasiliana, a Africanísia e a Euronova. A qualidade de vida abaixo da linha do equador assume ares de utopia, enquanto no outro hemisfério as corporações lutam pelo controle dos espólios dos antigos países. Nesse cenário, em que uma parte da economia mundial está visivelmente instável, o equilíbrio é mantido por meio da força, de uma consistente e bem defendida base econômica, e da tecnologia que avançou a passos largos até se tornar fundamental à vida. Foi nesse contexto que o Hipermundo se desenvolveu. Um sistema baseado em uma super-rede de servidores, no qual as pessoas desfrutam de uma forma complexa de realidade aumentada, utilizando-a para trabalho, socialização, cultura e registro digital de todas as informações mundiais.

Cyber Brasiliana

Apesar da sinopse oficial revelar bastante do universo construído, nada é dito sobre o enredo. Então, aqui vai uma segunda sinopse: Um soldado, uma programadora, um desenvolvedor e uma motoqueira são envolvidos nos planos de dominação do ganancioso líder da Sicilli Corporation. Eles se valerão de suas habilidades dentro e fora da realidade virtual, o Hipermundo, para enfrentarem essa ameaça.

Lançado pela Tarja Editorial, que encerrou suas atividades em 2013, Cyber Brasiliana é o primeiro romance de ficção científica de Richard Diegues, que já havia se aventurado pela fantasia e terror. Além de autor publicado, Diegues também era sócio e co-editor da Tarja. No posfácio, ele revela a intenção de “pavimentar” um caminho para os leitores ainda sem experiência que quiserem se aventurar pelo gênero, fato que explica muito sobre amaneira que o romance é conduzido.

A obra é uma das poucas publicações nacionais voltada a esse tipo de ficção científica, o que desperta interesse em qualquer fã de cyberpunk a procura de uma identidade nacional dessa literatura. Mas não é isso que acontece. Apesar da República Brasiliana ser a potência mundial descrita em algumas páginas, ela não é o cenário dos acontecimentos. Isso deixa uma sensação de propaganda enganosa, já que não há qualquer explicação sobre a escolha do título.

Parte da trama se desenrola no território que um dia foi os Estados Unidos da América, agora dividido e sob comando de diferentes corporações. A outra metade das ações acontece no mundo virtual, que já substituiu quase todas as necessidades humanas no mundo físico.

Richard Diegues

A narrativa em terceira pessoa acompanha diversos personagens. Ao que parece, Diegues quis trabalhar com muitos clichês, o que não é incomum dentro do cyberpunk. São: hackers, cientistas, soldados, etc. A única queixa quanto a isso é ao antagonista, Serguey Rajaram, que mesmo sendo bastante explorado, não apresenta qualquer evolução ao longo da história. Por outro lado, Guadalupe, uma inteligência artificial quase divina, consegue cativar o leitor em suas pouquíssimas aparições. Os que mais se destacam são Sa-ID e Zi Lin, que conseguem abandonar a bidimensionalidade de suas existências após dois terços do livro. Enquanto Cin-D, que surge para operar um deus ex machina, é tão cheia de habilidades, que é difícil de engolir.

O que mais me chamou atenção na obra, foi a quantidade de explicações sobre o worldbuilding, a começar pela sinopse, se estendendo aos fatos históricos/geopolíticos e ao passado dos personagens. Isso seria normal, se não fossem pela quantidade de detalhes que não são importantes ao leitor. São explicações que consomem grande parte de vários capítulos e, as vezes, aparecem em momentos impróprios, como quando interrompem uma cena de ação.

A maiorias dessas explicações se focam no funcionamento do Hipermundo. Isso não permite ao leitor descobrir por si só, o que torna tudo muito didático. Mesmo as entidades que controlam a realidade virtual, não escapam. Ao menos nesse ponto, usando da religião hindu para compor o sistema do Hipermundo, Diegues conseguiu dar uma interessante função para essas explicações.

A tecnologia também é descrita com abundância de detalhes. Se isso torna o ambiente crível ou não, depende do leitor. Particularmente, elas me agradaram quanto tiveram algum efeito naquele mundo. Em alguns momentos, porém, ela cria uma sensação boba, como a realidade aumentada usada nas rodovias. Também há o caso em que a falta de uma maneira melhor elaborada para descrever interações virtuais, cria um certo ar de artificialidade, como em momentos que os personagens “escrevem códigos no ar”. Isso me lembrou de como o filme Hackers (1995) simplificou o processo de hackear sistemas.

Pode parecer contraditório, mas mesmo com tantas explicações (que poderiam facilmente ser removidas sem afetar a obra), a narrativa é ágil. Diegues soube criar um ritmo tão intenso, que até as descrições tecnológicas mais difíceis não empacam a leitura. Mas isso não significa que você vai entendê-las da primeira vez que ler. Os capítulos curtos ajudam a tornar esse processo ainda mais acelerado. Além do livro também ser pequeno, apenas 254 páginas.

Em contraste a maneira que a tecnologia é apresentada, os processos históricos e geopolíticos não tem a mesma força de persuasão. Nesse ponto, é impossível não notar a influência de Snow Crash, de Neal Stephenson.

Há dois ou três momentos em que o estilo de escrita de Diegues é quebrado, como se outra pessoa assumisse o texto. Estranhamente, é nessa hora que surge o melhor lado da obra. Na memorável cena na capela, por exemplo, cria-se uma tensão capaz de reduzir o ritmo e, então, jogar o leitor contra reflexões que só uma obra de ficção científica poderia fazer. Também é nessa hora que os diálogos são mais carregados.

Como a editora fechou as portas, penso que dificilmente haverá uma nova edição impressa de Cyber Brasiliana. Então, levando em consideração a única edição [física] existente, há detalhes que não podem ser escondidos do leitor. A escolha do papel é o mais notável deles, pois a folha é fina e branca o suficiente para gerar transparência com certa facilidade. Também existem marcações em tons de cinza que, por vezes, ficam um pouco apagadas. Em contrapartida, a arte de capa é muito chamativa e combina perfeitamente com o clima cyberpunk.

Em uma das orelhas do livro há uma série de questionamentos. Cabe ao leitor, após finalizar a leitura, responder: você considera que essas reflexões foram abordadas na obra? Particularmente, senti que os elementos estavam todos lá, mas faltou um pouco de profundidade, já que o autor decidiu pelo caminho de uma boa aventura, ritmo frenético e ação cinematográfica.

Existe um prefácio e um posfácio no livro. O primeiro, escrito por um convidado, vai contra várias impressões que tive durante a leitura, como ao dizer não haver personagens clichês, nem verborragia tecnológica. Já o segundo, foi escrito pelo próprio autor, que nos apresenta mais explicações… Mas uma delas me intrigou bastante: ele adaptou seu trabalho de conclusão de processamento de dados para explicar um intrigante elemento da história! Vale ressaltar que Richard Diegues é formado em TI e atua como consultor tecnológico.

Embora o final seja fechado, o universo de Cyber Brasiliana se expande em contos nas antologias publicadas pela Tarja Editorial, explorando diferentes localidades. São eles:

  • MAI-NI Expressas, Paradigmas 1;
  • Baby Beef, Baby!, Paradigmas 3;
  • Uma Flôr a Gambô, Paradigmas 4;
  • Longa Vida: a República!, Cyberpunk: Histórias de um Futuro Extraordinário.

Indicação de resenha:
Cyber Brasiliana me deixou bastante dividido entre seus altos e baixos. Quando procurei por opiniões diferentes, me deparei com a péssima qualidade das resenhas que o livro recebeu. Esse não é um caso isolado, muitos blogueiros não conseguem se expressar em relação a ficção científica, talvez por falta de contato com esse tipo de literatura. Portanto, deixo como indicação a análise feita pelo grande resenhista Antonio Luiz M. C. Costa, que destrinchou cada elemento da obra para o site Carta Capital. Inclusive, foi essa resenha que me despertou interesse pelo livro.

Carta Capital:
https://www.cartacapital.com.br/cultura/um-cyberpunk-mais-ou-menos-brasileiro

Ou leia pelo Skoob:
https://www.skoob.com.br/livro/resenhas/115329/

Onde adquirir:
O que restou do estoque da editora pode ser adquirido por um preço baixíssimo no site:
http://foradeserie.tudonavitrine.com.br/
E a versão e-book de Cyber Brasiliana está disponível na Amazon:
https://www.amazon.com.br/Cyber-Brasiliana-Richard-Diegues-ebook/dp/B00BGIUBBS/

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