Hackers (1995)

Lançado em 1995, ano de grande importância (e por que não dizer também mudanças?) para o gênero, Hackers trazia ao cinema uma visão pop da cultura hacker.

Sinopse:
Aos 11 anos, um adolescente conhecido como Zero Cool se torna uma lenda depois de inutilizar 1507 computadores em Wall Street, provocando um caos no mundo financeiro. Proibido de usar um computador até chegar aos 18 anos, ele finalmente retorna sob o codinome Crash Override. Junto de seus novos amigos, ele terá de reunir evidências contra um complô que tenta os incriminar, ao mesmo tempo em que são perseguidos pelo Serviço Secreto.

Após completar 18, David (ou simplesmente Dade), se muda para Nova Iorque com sua mãe. Em sua nova escola ele conhecerá os outros hackers, integrando-se ao grupo. Também conhecerá Kate, com quem viverá uma relação de amor e ódio. Após um incidente que envolve uma conspiração dentro da Ellingson Mineral Company, o grupo passa a ser investigado pelo Serviço Secreto e perseguidos por Eugene “O Peste” Belford.

Hackers patinadores de NY.

Repleto de clichês e muito humor, Hackers não é um filme para se levar a sério. Todos os personagens são estereotipados. O mais caricato é Eugene, o antagonista, que apenas aparece para andar skate pelos cenários, gritar, xingar e cultuar o próprio ego. Os hackers são retratados como uma gangue de adolescentes em buscam de provação. Todos se vestem de maneira extravagante e não hesitam em quebrar regras.

As disputas nos computadores ainda contém um pouco daquele fascínio que encontramos em outras produções da época. Laptops conectados a linhas de telefones públicos, um ciberespaço tridimensional representando o interior de um computador, imagens sem sentido de equações matemáticas e estranhas figuras geométricas. Pura nostalgia!

Momento da invasão ao supercomputador Gibson.

Dentro da proposta do filme, não era de se esperar atuações espetaculares. Ele acaba sendo muito lembrado pela presença de Jolie em um de seus primeiros trabalhos no cinema. Mas não se engane, esse não foi o primeiro filme com influências cyberpunks de sua carreira. Em 1992, no filme Cyborg 2: Glass Shadow, uma sequência não relacionada de Cyborg, O Dragão do Futuro (1989), ela faz o papel de uma ciborgue assassina!

Cereal Killer e Kate.

Outro nome conhecido é Jonny Lee Miller, o protagonista e dono da pior atuação da obra. Talvez ele quisesse passar a impressão de um hacker recluso por já ter sido condenado pela justiça, mas se tentou, não foi nada convincente. O resto do elenco é consideravelmente diverso, fato que combina com as palavras do Manifesto Hacker lido durante a longa metragem: “Nós existimos sem cor de pele, sem nacionalidade (…)”, mas que também fica dentro do nível de atuação esperada para um filme tão comercial. Matthew Lillard merecia um prêmio por seu bizarro personagem (Cereal Killer), que consegue ser um alívio cômico para todos os momentos.

Em uma cena, há um gancho que merece destaque pela porta que abre ao tema da publicidade de refrigerantes nos EUA. Recomendo a leitura da ótima postagem do Neon Dystopia sobre o assunto, que cita os vários ícones cyberpunks envolvidos na “guerra” entre a Pepsi e a Coca-Cola.

Mas em Hackers, o refrigerante citado é o “Jolt Cola, a bebida da elite hacker“, que era comumente associado a LAN Parties, tendo até uma premiação com seu nome na área de programação de computadores. Razor e Blade, os apresentadores do falso programa pirata Hack The Planet, fazem um merchandising da bebida em uma aparição. Até onde sei, Jolt Cola nunca foi comercializado no Brasil e a empresa declarou falência em 2009.

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Os apresentadores Razor e Blade.

Uma crítica sempre feita ao filme, é que ele se tornou datado em todos os sentidos. Temos o uso de disquetes, técnicas de phreaking que não funcionam mais, especificações de hardware e baixa qualidade gráfica. Até musicalmente ele é datado, pois sua trilha sonora é bastante concentrada na época de seu lançamento. No geral são músicas eletrônicas mais ou menos alternativas, que combinam perfeitamente com o tema. Destaque para “Voodoo People“, da banda The Prodigy.

Para o bem ou para o mal, Hackers marcou as produções cyberpunks. Diversos elementos do filme são lembrados pelos fãs do gênero, inclusive aqueles que não correspondem a realidade, como os esteriótipos de comportamento, as roupas e os patins. Mas nada se compara ao memorável protesto de Dade ao ser preso:

Hack the planet! Hack the planet!

Tenho a impressão de que o filme, assim como a obra Snow Crash, de Neal Stephenson, criou uma grande paródia cyberpunk, sabendo aproveitar dos clichês para fazer uma versão cômica e exagerada da ficção científica. Hackers ajudou a marcar essa fase de mudanças no gênero, pois como já citei em outros posts, em 1995 surge a compreensão de postcyberpunk.

Comparado a outros filmes, veremos que Hackers se passa totalmente dentro de sua época, os anos 90. Não se trata de um futuro próximo. Não aborda o high tech/low life. Não é uma distopia. Não discute com profundidade os efeitos da tecnologia na vida moderna. O filme todo é apenas uma grande aventura, com raros momentos em que algum personagem defende a ética de seus atos. Ele entretém com seu humor simples, um romance previsível e desafios a serem superados pelos hackers.

Percebeu que isso não se trata de cyberpunk? Pois é, Hackers está muito mais para um nowpunk noventista. É também um filme que tem muito a contar sobre como se imaginava a cibercultura e o movimento hacker, quando seus conceitos ainda eram obscuros para muitas pessoas.

Indicação de entrevista:
Muitos dizem que o filme se tornou cult. Pode até ser, mas será que aqui no Brasil ele é visto assim? Tenho minhas dúvidas, pois encontrei menos resenhas do que esperava em português. Ou seja, cadê o público? Por isso, ao invés de resenha, deixo a indicação da entrevista que o diretor concedeu ao site Motherboard (em português):

https://motherboard.vice.com/pt_br/article/papo-com-diretor-de-hackers-piratas-do-computador

Curiosidades:

  • Sua estréia no Brasil aconteceu em 1996 e recebeu o subtítulo “Piratas de Computador”, que apesar de redundante, na época se fazia necessário, já que não haviam tantas informações sobre o que eram hackers;
  • O cenário das gravações escolares funciona realmente como uma instituição de ensino e alguns dos figurantes eram estudantes do local;
  • Foram lançados três CDs de trilha sonora, mas algumas músicas creditadas no filme não apareceram em nenhum deles;
  • Há algumas referências ao mundo da computação/cultura hacker em nomes usados no filme, como Babagge, Gibson e Emmanuel Goldstein;
  • O elenco teve três semanas para se preparar para as gravações. Durante esse tempo aprenderam a andar de patins, estudaram sobre computação e tiveram encontros com verdadeiros hackers. Jonny Lee Miller até chegou a participar de convenções hackers;
  • Jonny Lee Miller e Angelina Jolie se casaram pouco tempo após o fim das filmagens (1996) e se divorciaram em 2000;
  • A produtora (MGM) foi supostamente hackeada por um grupo chamado “Internet Liberation Front”, que teria modificado a frase promocional do site do filme. Provavelmente, tudo não passou de um golpe publicitário;
  • Em muitas das cenas do ciberespaço não foram usados efeitos de computação gráfica. Segundo o diretor, o CGI poderia deixar as imagens planas e estéreis.

Trailer do filme:

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2 comentários sobre “Hackers (1995)

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