Estranhos Prazeres (1995)

Sinopse:
Nos últimos dias de 1999, em Los Angeles, o ex-policial Lenny Nero (Ralph Fiennes) negocia CDs contendo emoções e memórias de outras pessoas. Quando um disco que contém os últimos registros de uma prostituta assassinada vai parar em suas mãos, sua vida passa a correr perigo. Em meio ao clima de tensão racial que domina a cidade, a revelação do conteúdo do misterioso CD pode ser o estopim de uma incontrolável reação popular.

A cena de abertura revela uma boa dose do que veremos no seguir do filme. A gravação de um assalto filmado pela visão de um dos assaltantes. O roubo acaba saindo de controle e o ex-policial Lenny, que esta assistindo a gravação, fica em choque com a violenta cena final. O dispositivo (SQUID) utilizado durante todo o filme para gravar e acessar os momentos da vida de outras pessoas, é uma clara inspiração do SimStim, dispositivo criado por William Gibson em seu romance Neuromancer.

A  sigla SQUID se refere a um dispositivo real, o Superconducting Quantum Interference Device, um magnetômetro super sensitivo, usado na geração de imagens por ressonância magnética. Mas no contexto do filme, o aparelho teria sido desenvolvido pelo FBI, para substituir a maneira de investigação baseada em gravações de áudio, como grampos de microfone, até que o produto caiu no mercado negro.

O SQUID permite ao usuário reviver o momento gravado, sentido todas as emoções da pessoa que o vivenciou, como: prazeres, dores, medos, felicidade, etc. Isso cria um grande mercado de consumidores ilegais, que buscam sensações além de suas próprias vidas. De fato, isso permitiria, por exemplo, a qualquer pessoa sentir o prazer de uma relação sexual sem o ato físico. As implicações do uso dessa tecnologia cria um alívio aos desejos humanos e o livra de qualquer culpa, como trair um cônjuge ou matar alguém, já que tudo não passa de uma gravação e sensações simuladas.

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Lenny vivenciando uma experiência pelo SQUID.

Voltando ao filme, acompanhamos Lenny em sua rota noturna pela cidade a procura de outras gravações e clientes. Seu amigo Max é apresentado, revelando bastante intimidade entre eles. A obsessão de Lenny por sua ex-namorada, é demonstrada através das recordações que ele revive constantemente pelo SQUID. A todo momento, cenas de ruas tomadas por pessoas em diversos atos de desordem, invadem a tela demonstrando a caótica Los Angeles de 1999, poucos dias antes da virada do ano.

O ritmo é empolgante e as situações o torna interessante, com diversas investidas em humor e na psicologia dos usuários do SQUID. Até que a história de Lenny acaba se voltando aos acontecimentos de sua amiga Iris, que não recebe muita atenção, até o momento em que ele recebe um CD contendo as cenas da morte dela. A maneira como ela é assassinada, resulta em uma interessante reflexão sobre a brutalidade de atos que temos acesso por meio da tecnologia.

O filme entra em uma longa investigação, relacionando o produtor musical Philo, o rapper Jeriko One e a polícia. Em meio a isso, Lenny tenta entrar em contato com sua ex-namorada repetidas vezes, que esta em um relacionamento com Philo. Isso acaba minguando um pouco as expectativas sobre o filme, que demora a se desenrolar. Mas é durante esse momento, que Mace, sua amiga, começa a ganhar mais presença na trama, ajudando Lenny em diversas ocasiões e revelando sua ligação com ele em um flashback.

Quando a morte do rapper Jeriko One é esclarecida através uma gravação feita por Iris em seu SQUID, o filme ganha um novo rumo. O caos mostrado nas ruas durante todo o tempo, serve como uma prévia do que poderia acontecer, caso a população soubesse de como ele foi morto. Então, Lenny e Mace partem a procura de informações sobre o assassino de Iris, que supostamente estaria envolvido no meio do produtor musical Philo.

Eles encontram Tick, um negociante ilegal de gravações, em um estado debilitado. A tecnologia novamente mostra seu lado negro. Tick teve seu cérebro “fritado”,  pela ampliação do sinal do SQUID em seus lobos frontais. Ele não pode ser considerado morto, mas seu cérebro não consegue se recuperar dos danos causados, ficando para sempre preso naquele situação.

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Tick com o cérebro “fritado” pelo SQUID.

Então, na tentativa de avisar Faith sobre os perigos das pessoas próximas a ela, eles são surpreendidos quando descobrem que ela já sabia de tudo, e ainda revela a relação entre Philo e Jeriko One. Dito isso, a trama se encaminha para seu final, onde apenas o assassino de Iris ainda é desconhecido e a dupla tem de tomar a difícil decisão sobre o que fazer com o CD da gravação.

Antes disso, há uma pausa reflexiva para colocar a mente de Lenny no lugar, pois desde o fim do romance com Faith, ele ficou preso a seu passado. A virada do ano está prestes a ocorrer e as ruas estão lotadas de pessoas celebrando em meio ao caos cada vez mais maior. Em meio a isso, a policia está constantemente presente e fortemente armada, a ponto de ser opressor apenas de olhar.

O final é um pouco decepcionante ao revelar os motivos por detrás de alguns acontecimentos que envolvem Max. Apesar de tudo se encaixar, suas motivações são completamente pessoais, o que pode não satisfazer o espectador que aguardou duas horas para compreender o filme. Contudo, Mace acaba passando por uma situação que gera uma comoção bem feita, eclodindo em uma revolução e a revelação do segredo da morte de Jeriko One.

Há uma bela mensagem no filme sobre questões raciais, de gênero e diversos tipos de violência. Também há uma reflexão sobre a responsabilidade de nossos atos e na sua ocasionalidade, que pode ser notado no discurso final de Max, nas atitudes de simples guardas de trânsito e no uso do SQUID para viver momentos sem compromisso com os fatos.

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Festa de celebração da virada do ano.

A música é algo marcante durante toda a película. Apesar da morte de um rapper ter criado uma grande comoção, o rock é o estilo que predomina na trilha sonora. Provavelmente, essa escolha foi uma maneira de representar a revolta da população nas ruas de Los Angeles. Muitos figurantes apresentam o visual punk/rock, demonstrando a adesão a essa revolta. Entre os artistas que participam da trilha sonora, estão alguns nomes como Marilyn Mason, Diatribe, The Doors e Lords of Acid.

Os elementos de ficção científica da obra, são abordados  de forma sutil, pois o filme parece mais interessado em tratar de questões sociais e sobre o comportamento humano. Exceto pelo SQUID, nenhuma outra tecnologia é apresentada. Algumas características, como: futuro próximo (apenas 5 anos de diferença de lançamento do filme), realidade virtual disseminada no mercado negro, revolta nas ruas contra o sistema e o comércio ilegal de um produto que subverte a realidade a qual estamos presos; são facilmente associadas ao cyberpunk.

Em um artigo publicado por Lídia Zuin para diversos sites, ela aborda uma conexão entre Estranhos Prazeres e outro filme, Cosmopolis (2012), e ainda discute a questão da representatividade e da realidade virtual de maneira maravilhosa.

Com direção de  Kathryn Bigelow (ganhadora do Oscar de melhor direção por Guerra ao Terror, 2009) e grandes nomes no elenco, como: Ralph Fiennes, Juliette Lewis e Angela Bassett; a obra ainda apresenta James Cameron como roteirista e produtor. Apesar disso, o filme não conquistou o público na época de seu lançamento. Atualmente, ele começa a ser cultuado como uma boa ficção distópica, situação pela qual também passou Blade Runner. Ambos fracassaram comercialmente, apresentaram temas com certa profundidade sobre a vida e a tecnologia, então, foram redescobertos anos depois. Aparentemente, a influência do cyberpunk no cinema sofreria até a estreia de The Matrix, em 1998.

Indicação de resenha:
http://minhavisaodocinema.blogspot.com.br/2013/08/critica-estranhos-prazeres-1995-de.html

Curiosidades:

  • O ano de lançamento do filme, 1995, foi um ano movimentado para o cyberpunk, Johnny Mnemonic fazia sua estréia, assim como Hackers, Judge Dredd e outros filmes inspirados pelo cyberpunk. Além disso, ele começava a se desdobrar, surgindo o postcyberpunk;
  • Faith (Juliette Lewis) realmente cantou todas as músicas de sua personagem no filme;
  • Em uma cena, um canal televisivo aparece noticiando a premiação de Nobel da paz para Muammar al-Gaddafi;
  • Foi necessário desenvolver uma câmera para simular o ponto de vista das gravações feitas pelo SQUID, que levou o período de quase um ano para ser concluída;
  • Há uma citação de Blade Runner em meio a um diálogo entre Nero e Faith, “Dry me”;
  • O carro usado por Nero, é um protótipo da Mercedes Benz do modelo do ano de 1997, dois anos após a data de gravação;
  • A ideia para o roteiro surgiu após o veredito do caso de Rodney King, um taxista negro que foi espancado pela polícia de Los Angeles. Os policiais envolvidos foram absolvidos por um júri composto em sua maioria de pessoas brancas. Tal acontecimento causou uma revolta intensa na cidade, saques, roubos, depredações e incêndios por três dias;
  • O filme recebeu quatro indicações ao Saturn Award, vencendo em Melhor Atriz e Melhor Diretor.

Trailer do filme:

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Um comentário sobre “Estranhos Prazeres (1995)

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