Construindo o Cyberpunk – Parte II

Após a breve análise das características abordadas na Parte I, high tech e low life, é hora de se aprofundar na proposta do post: trilhar um caminho para o surgimento do cyberpunk.

Apesar de haver contradições sobre o tema tecnológico do universo cyberpunk e o mundo atual, afirmar que o subgênero é datado, é uma conclusão precipitada. Digo precipitada, pois em questões relativas a informática, há muitos pontos em que a “predição” de certos autores, se concretizaram. Baseado na proximidade que temos com a tecnologia hoje em dia, é fácil dizer que já vivemos o cyberpunk. Afinal, fazemos compras online, interagimos através de dispositivos eletrônicos, nos comunicamos virtualmente com o resto do mundo. Esse texto é um exemplo disso. O sentimento de estar conectado, é algo muito intenso.

Mas, afinal, seria esse o único ponto a ser analisado? Se pensarmos apenas no conceito dessas tecnologias e não em suas ferramentas de acesso, sim. Porém, acho isso um tanto reducionista. Gosto de evocar as obras que surgiram antes do postcyberpunk para refletir sobre isso, pois após ele tudo ficou mais ajustado a realidade tecnológica dos anos 90 em diante. Ou seja, computadores, internet e celulares já eram populares. Então, olhando para as obras ainda da década de 80, já temos exemplos de tecnologias que ainda não existem. Não é necessário ir longe para encontrá-las. O clássico Neuromancer já traz uma quantidade suficiente de itens a ser analisados: inteligência artificial geral, simstim, implantes cibernéticos sofisticados e a transferência de memória/consciência para meios virtuais. Ou seja, o cyberpunk ainda se trata de um futuro próximo, sim.

Então, em relação aos aspectos tecnológicos, o que seria necessário? Acredito que para construir uma realidade cyberpunk, precisamos de uma ferramenta capaz de trazer o futuro até nós: a Automação.

É claro, que ela não é o único meio para se obter resultados. Mas se tratando de implementação de novas tecnologias, é notável como muitas delas surgem nas indústrias. E o que acontece atualmente, é o investimento em automação de processos. Vivemos a aurora da Quarta Revolução Industrial e muitas pessoas ainda não se deram conta disso. É a indústria quem primeiro necessita de upgrades tecnológicos em suas linhas de produção. Protocolos de comunicação entre redes, aprimoramento de sensores, transdutores, equipamentos de medição e diversas outros, surgem primeiro para laboratórios, indústrias e pesquisas encomendadas para criação de novos produtos.

Primeiro é preciso entender um pouco sobre ela. De forma grosseira, a automação como conhecemos hoje, surgiu no final da década de 60. Aquilo que ficou conhecido como Controlador Lógico Programável (CLP), substituiu os relés elétricos, criando uma maior dinâmica dentro da indústria, pois ele necessita apenas de alterações de programação dentro de sua memória para enviar comandos de realização das tarefas.

Isso representa uma economia em espaço, trocando um enorme painel elétrico por um aparelho menor; de dinheiro, pois o investimento terá facilmente um retorno produtivo e menor necessidade de manutenção; e de tempo, pois é facilmente reprogramável. Portanto, se a tecnologia de automação cria avanços industriais, isso acaba sendo revertido em mais avanços tecnológicos para outras áreas.

Mas o que ela pode fazer a favor do surgimento de uma realidade cyberpunk? Basicamente, a automação alavanca o desenvolvimento tecnológico e a criação de produtos cada vez mais sofisticados. Ela consegue unir diversas áreas como a elétrica, a programação e a eletrônica, consequentemente, a robótica. Portanto, se a ambientação cyberpunk requer alta tecnologia, haverá uma grande presença da automação dentro dessa realidade. Olhar para o futuro da automação, é enxergar máquinas cada vez mais autônomas e inteligentes.

Como distopia, o cyberpunk apresenta criminalidade e desemprego. A automação pode ocasionar que isso se torne algo cada vez mais real em nosso mundo. Mas DEPENDERÁ de quão sofisticado é o sistema autônomo que irá atuar na área de produção. Também DEPENDERÁ de como o avanço da automação será implementado. Ou seja, se optarmos pela construção de uma distopia, quanto maior for a substituição sem planejamento de humanos por máquinas, maior a chance da sociedade colapsar em miséria e injustiça.

Outra característica interessante relativa a automação, é o conceito da domótica, ou seja, a automação dentro das residências. A comunicação entre os elementos de uma casa, confere maior controle sobre ela, a ponto de a própria residência poder representar uma inteligência autônoma. A presença de tecnologia dentro dos lares pode não ser um detalhe tão notório em uma obra, pois em uma realidade futurista, ninguém encararia isso como algo inovador, já que o conceito de domótica existe desde a década de 70. Mas em um volume de Transmetropolitan, somos rapidamente apresentados a uma inteligência artificial viciada em simuladores de alucinógenos, que faz parte de um eletrodoméstico. Em outro momento, o protagonista [Spider] se dedica a assistir televisão um dia inteiro, posteriormente sofrendo com a tecnologia invasiva das propagandas, capazes de causar sonhos que o induz a consumir produtos específicos.

Mas quando chegaremos a esse grau de sofisticação? Provavelmente não tão cedo. Apesar de a indústria já ter começado a avançar sobre Internet das Coisas, para criar uma cadeia de produção inteligente ligada a Big Data, ela ainda está muito limitada no momento atual. E mesmo que isso exploda e a Quarta Revolução Industrial massifique seus métodos de produção, ainda dependeremos da capacidade de uma inteligência artificial sofisticada o suficiente para que isso, aliado ao egoísmo de corporações, torne o mundo um caos que sobrepuja o ser humano por meio da tecnologia. Então, sem a intervenção do Estado e com máquinas substituindo não somente funções, mas empregos, estaremos em frente a face distópica do cyberpunk, ao menos, uma delas.

As relações entre a tecnologia e o cyberpunk, rendem densos temas a serem explorados. Eu poderia estender o texto, mas isso o tornaria cansativo como uma dissertação de mestrado. Não me baseei em fontes para a criação desse texto, apenas relacionei o tema ao que aprendi na graduação em automação, nem entrei em detalhes mais complexos para não descaracterizar o foco na literatura.

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