Erros – Parte III

Continuando com mais um item, e esse é o mais difícil de falar sobre, o postcyberpunk. Todo fã já deve ter se deparado com essa separação, que foi iniciada em 1995 com o lançamento do livro The Diamond Age, de Neal Stephenson. A questão é: essa nova visão apresentada é suficiente para se criar um novo subgênero literário? Eu nunca enxerguei muito sentido nisso e vou tentar explicar porque. Por definição, o postcyberpunk seria uma maneira mais atualizada de descrever o mundo tecnologicamente, em que seus personagens saem da abordagem “alienados pela tecnologia” e a abraçam, sendo ela considerada sociedade. Então, uma mudança na maneira do protagonista em observar o mundo que o cerca, é o pilar disso tudo? Para mim, nada mais parece do que a escolha de representar um personagem mais fácil de se identificar com o mundo real. Fugindo um pouco da distopia, mas não se assumindo como utopia. Apenas sendo mais realista em sua abordagem.

Outro elemento que é considerado postcyberpunk, é o protagonista em relação ao Status Quo. Ou ele está lutando para mudá-lo (em busca de melhorar as condições sociais), ou está lutando para protegê-lo. Essa é a característica que acho menos atrativa. Pois em qualquer história, sendo ela ficção científica ou não, há algo que possa ser assemelhado a ideia de ter um protagonista querendo evoluir ou se manter como está. Simplesmente, é um argumento muito generalista dentro da literatura, para me fazer interpretar isso como uma mudança de paradigma. Parece apenas o cyberpunk “clássico” com outro ponto de vista.

Aí entra outra questão, a descrição da tecnologia. O postcyberpunk ficou muito marcado por nanotecnologia e biotecnologia na obra de Neal Stephenson. Se considerarmos cada uso de diferente tecnologias, teremos “n” subgêneros literários, onde “n” assume o valor da quantidade de tecnologias existentes. Um argumento como esse faz bastante sentido para os outros subgêneros do cyberpunk. Basicamente temos histórias e mais histórias passadas nas mais diversas épocas com os mais diferente tipos de enfoque tecnológico a ser explorado pelo autor. Mas até onde isso pode ser considerado um novo movimento literário ao invés de apenas uma nova roupagem?

No fim das contas, os dois movimentos [cyber e postcyber] parecem usar da ficção para contar uma mesma história. Não há uma ruptura como houve entre a ficção clássica e o cyberpunk. Personagens mudam de lado em qualquer gênero literário. Tecnologias e teorias novas são acrescentadas a literatura todos os dias. Recentemente, um artigo do Neon Dystopia abordou o postcyberpunk, onde o “clássico” e o “post-” são definidos, e ainda assim, não fui convencido. O maior argumento desse artigo, consiste em associar o postcyberpunk como um amadurecimento do gênero. Mas, sinceramente, quando vejo protagonistas niilistas sendo substituídos por atos de heroísmo ou de preocupações mais realistas, enxergo um público que busca um material mais acessível. Em contrapartida, traz novos temas para refletir sobre.

Provavelmente, nem seja um erro criar esse subgênero dentro do cyberpunk, e tudo não passa de uma implicação minha. Porém, o que me deixa descrente nessa diferença entre os dois, seja justamente a falta de uma lacuna maior. Quando o cyberpunk surgiu, ele logo foi entendido como uma nova maneira de observar o futuro da humanidade e sua relação com a tecnologia, representando com grande niilismo o nosso presente [daquela época]. Trinta anos depois, o que mudou? Quase nada. O mundo não sofreu uma alteração grande o suficiente para que uma nova visão surja, tampouco a literatura em busca de um outro olhar sobre esses fatos. A maior mudança veio apenas do ponto de vista dos protagonistas.

Uma comparação um pouco boba de se fazer, mas útil, é olhar o nosso presente. A literatura se tornou um grande espaço de representatividade. Muitos autores não querem tratar da ficção apenas como ficção, mas querem representar valores sociais em seus personagens. De contexto raciais, a mudança de sexo e nacionalidade, a literatura dessa década mudou muito. Não em vão, houve aquela situação na premiação do Hugo Awards de 2015. Porém, nem mesmo após um movimento tão grande e tão discutido, estão surgindo classificações “post-x”, onde o x pode representar um gênero ou subgênero qualquer.

Outro argumento defendido no postcyberpunk, é tratar a literatura de ficção especulativa como um movimento contínuo até o cyberpunk. A partir dali, os novos autores que cresceram lendo a ficção escrita até os anos 80, criariam uma descontinuidade nessa suposta linha temporal. Com base nisso, é fácil recriar o mesmo raciocínio a cada 20 ou 30 anos, talvez até menos, dependendo da situação do mercado editorial.

Até que surja algo capaz de revolucionar a maneira de se contar histórias de ficção especulativa novamente, todos seus subgêneros continuarão sendo apenas desdobramentos das mesmas ideias, mas em tecnologias e/ou épocas diferentes. O mais longe que consigo enxergar como algum avanço direto do cyberpunk, sem tentar apenas trocar sua roupagem, seria o Cyberprep. Sua maior diferença é a remoção do elemento punk da história, uma mudança significativa em um dos elementos primordiais.

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