A Música Cyberpunk

O Cyberpunk é um movimento literário, é importante lembrar disso ao transpor seus valores a outras mídias. Quando se fala em música, vale lembrar que não existe uma definição clara de como classificar o que é, e o que não é música cyberpunk. Esse título é dado ao se identificar algumas características dos movimentos musicais que se assemelham a elementos dessa distopia futurista. Outra maneira, é quando o artista se declara influenciado pelo movimento literário e faz composições em sua homenagem.

eletronico-580x386

Há um reflexo musical da influência do movimento cyberpunk, que não se limita apenas a inspiração causada pelas obras literárias. Essas influências também podem ser detectadas vindas de outras fontes, como: moda, filmes, quadrinhos e jogos, assim como de questões sociais, políticas, arriscando até a dizer filosóficas; além é claro, da cibercultura e dos avanços tecnológicos. A união desses diversos tipos de expressões, criaram aquilo que conhecemos hoje como a cultura cyberpunk.

Todas essas formas de mídia se influenciam constantemente, levando a música a se moldar conforme mudanças acontecem no cenário. Alguns filmes de ficção tem embalado canções que acabam por serem submetidas ao título de cyberpunk. Não existe um padrão para suas composições, elas acompanham o ritmo e a ambientação dos filmes, como no caso de Blade Runner. A mistura de música orquestrada com música eletrônica de sua trilha sonora, é por muitas vezes arrastada e melancólica, se encaixando perfeitamente na proposta do filme, levando o espectador a reflexões desejadas.

Outros filmes trouxeram canções que conseguiram fazer a caracterização do cyberpunk de forma completamente diferente, com músicas dançantes e/ou agitadas. É claro que comparar trilhas sonoras não é um argumento, apenas uma observação de como a música pode ser representada dentro do universo cyberpunk. Acredito que Matrix foi o filme que melhor se desenvolveu nesse aspecto. Uma pequena pesquisa pode revelar a quantidade de artistas utilizados para se chegar ao resultado de sua fabulosa trilha sonora. Entre eles, nomes como Rob Dougan, Juno Reactor, The Prodigy, Rob Zombie e Rage Against The Machines.

Um exemplo mais recente é o filme Chappie, que traz a dupla de músicos do Die Antwoord como atores. Interessante notar como a banda surge representando uma nova onda para rotulação de música cyberpunk, ao mesmo tempo que a banda se diz representante de um movimento de contra cultura (Zef), exatamente como o cyberpunk podia ser visto em seu início, quebrando os paradigmas da literatura sci-fi clássica.

Deixando de lado a influência de filmes na concepção de rotulação musical, temos o surgimento de bandas influenciadas diretamente pela cultura cyberpunk. A exemplo de Front Line Assembly, Grendel, Fear FactoryClock DVA e Skinny Puppy. Isso ocorre a diversos fatores, que vão desde os temas abordados nas letras, até a agressividade da maneira de se expressar com o uso de tecnologias de composição eletrônica, que remete ao ambiente transmitido quando se imagina ações de hackers em um ciberespaço.

Combichrist é uma banda que consegue trazer facilmente os elementos dessa cultura underground através de suas canções, que abordam situações onde é fácil inserir um clássico personagem de cyberpunk. Além é claro, de sua sonoridade alternativa e [alguns] de seus video clips. Bastando juntar a mensagem da música com o vídeo para sentir essa ambientação.

Em alguns casos, a influência declarada faz a rotulação de cyberpunk ficar claramente reconhecida. O caso mais marcante, acredito ser o da banda irlandesa U2. Ao compor algumas faixas abordando o impacto da tecnologia na vida humana, Bono Vox diz ter-se inspirado na literatura de William Gibson, dessa forma, o álbum Zooropa de 1993, tornou-se uma uma referência a música cyberpunk. Nesse caso em específico, acredito haver uma supervalorização dessa rotulação, pois U2 é uma banda de gosto popular, então qualquer atitude pequena torma grandes proporções. Também pelo motivo da maioria das faixas não tocarem em temas relativos ao cyberpunk, enquanto algumas poucas o fazem de maneira superficial. Assim, supervalorizando o álbum como algo que ele não tem profundida suficiente para representar. Não que isso torne a música ruim ou estrague o trabalho da banda, mas ouvir suas músicas sem ter esse conhecimento prévio, dificilmente vai levar o ouvinte a associação do tema proposto pela banda. Vale ainda dizer, que Bono Vox é novamente associado ao cyberpunk, quando aparece em um documentário ao lado de Gibson e Bruce Sterling, em No Maps for These Territories (2000), o que comprova ainda mais seu interesse pelo assunto.

Outro artista que embarcou nessa onda para desenvolver um álbum totalmente voltado ao subgênero, foi Billy Idol. Seu álbum conceitual intitulado Cyberpunk lançado em 1993, foi uma grande declaração como fã dessa literatura, que o fez mergulhar profundamente em pesquisas sobre a cultura cyberpunk durante a produção do álbum. Para a época, o resultado foi muito inesperado, gerando críticas negativas sobre seu trabalho. Mas para os fãs do movimento, o efeito foi contrário e o álbum se estabeleceu como um clássico para eles.

O cyberpunk encontrou na música eletrônica alternativa seu maior potencial. Apesar de muitas bandas não conseguirem ser lançadas ao grande público com a facilidade do U2 ou Billy Idol, é entre elas que se encontram os trabalhos com mais profundidade de temas. Essa facilidade da música eletrônica em conversar com o cyberpunk é bem interessante, mas infelizmente poucos artigos tratam desse assunto. Assim como em outros tipos de ficção científica, o som eletrônico consegue representar com facilidade ambientes futuristas e cercados de tecnologia.

A própria música eletrônica representa um avanço tecnológico para a composição musical, e tecnologia é sempre um ponto importante para esse tipo de ficção. O uso de sintetizadores permitiu o surgimento de diversos gêneros musicais novos. Em muitos desses movimentos, encontram-se inclinações as influências do cyberpunk ou indicam ter tendências a temas futuristas, tais como: neurofunk, ebm, dubstep, industrial, futurepop, aggrotech e outros.

Kraftwerk pode ser considerada a banda precursora de toda essa música eletrônica voltada a cibercultura, merecendo os créditos pela sua influência na música do século XX de forma geral.

Se o lado tecnológico do cyberpunk parece ter sua representação por meio de música eletrônica, o que dizer do lado social? Todos aqueles personagens marginalizados, cidades entupidas e um sistema injusto e exploratório, são facilmente encontrados no punk/rock, com seus temas de subversão ao sistema, niilismo, marginalização e contra cultura.

Essa ampla gama de gêneros musicais e a maneira como são relacionados ao cyberpunk, demonstram o quão profundas são suas raízes na sociedade moderna. Ficando evidente que todos produtos que compartilhem dessa mesma abordagem, também fará parte dessa ampla esfera cultural. Apesar de não ser um estilo musical, o cyberpunk influenciou de forma direta e indireta a música dos últimos 30 anos.

Anúncios

5 comentários sobre “A Música Cyberpunk

    • Veja bem, Sigue Sigue Sputnik é uma banda surgida nos anos 80, não ouvi mta coisa deles e o que ouvi achei bastante experimental. Acho que existem muitas maneiras de analisar se a banda é ou tem influência de cyberpunk. Uma delas é procurando os elementos de que a aproximem da cultura cyberpunk. Letras que tratam sobre tecnologia sempre vai nos dar essa impressão. Outra maneira é pesquisando por entrevistas dos músicos e tentar entender qual a mensagem eles queriam passar e se ela é compatível com o gênero. Não dá para traçar linhas definitivas que separem as fronteiras da arte, onde começa um movimento e onde ele termina. O próprio cyberpunk já não é mais visto dentro da literatura como ele era no início do movimento. Portanto, imagine o que falar dele musicalmente… Quase tudo o que surgiu junto da New Wave (movimento musical) vai nos remeter a década de 80, a mesma do surgimento do cyberpunk… No site da Wikipédia, a banda está relatada como “Ciberpunk Music” no tópico em inglês, o que torna o consenso de que a banda é cyberpunk mais amplos.

      Curtir

    • Olá, Kiyoshido, mto bem observado, existe uma diferença grande entre o trabalho dessas duas bandas. Enquanto o Kraftwerk soa como uma distopia, o Yellow Magic Orchestra é mais voltado ao estilo que eles próprios criaram, o synthpop, que é uma música mto mais alegre e dançante. Entretanto, isso não significa que uma banda é mais ou menos cyberpunk do que a outra. Não existem regras para essa classificação. E ainda assim, a ambientação do Kraftwerk reflete com mais intensidade um futuro distópico cyberpunk. Mas vamos colocar um contraponto aí? Veja bem, o YMO usa mto de música tradicional japonesa em suas composições. E o que os autores cyberpunks da década de 80 colocavam como a cultura dominante em suas obras? A japonesa, é claro!
      Hoje em dia, com o revival que o movimento Synthwave vem causando, junto da estética retro do Vaporwave e com uma cultura gamer desenvolvida ao ponto de jogos antigos serem cultuados (e sabendo que o YMO é lembrado pela influência de música de jogos eletrônicos), acho que a banda está facilmente navegando por qualquer coisa que retome a década de 80, e isso inclui o cyberpunk.
      Então, respondendo sua pergunta, mesmo sem o clima “alemão” robótico do Kraftwerk, o YMO pode muito bem representar um tipo de ambientação diferente dentro do universo cyberpunk.

      Curtir

Deixe um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s