Johnny Mnemonic (1995)

Johnny Mnemonic é o filme que me iniciou na cultura cyberpunk. Por isso acho justo ser o primeiro a receber uma análise no Cyber Cultura.

Sinopse:
Em 2021, o mundo inteiro está conectado através de uma gigantesca Internet. Metade da população é afetada pela SAN, uma espécie de AIDS do século XXI, uma alergia fatal às ondas eletromagnéticas. No entanto, um mensageiro cibernético (Keanu Reeves) é contratado para transportar 320 gigabytes que contêm a cura para este mal em um chip implantado no seu cérebro. Entretanto, seu cérebro está saturado e um grupo planeja impedi-lo de levar esta informação. Deste modo, ele tem apenas um dia para salvar a si e ao mundo.

O filme é baseado no conto homônimo de William Gibson, lançado em 1981 pela revista de ficção científica Omni, e mais tarde na coletânea de contos Burning Chrome de 1986. Para a adaptação do filme, o próprio Gibson foi responsável pelo roteiro.

O começo conta com uma introdução sobre a segunda década do século XXI, que enumera vários elementos do cyberpunk: corporações, hackers, criminosos, implantes tecnológicos e uma doença que afeta metade do mundo (caracterizando muito bem o elemento low life). É nesse ambiente que Johnny, interpretado por Keanu Reeves, deve completar sua missão de courier mnemônico.

Seus problemas começam quando ele descobre que terá de transportar o dobro da sua capacidade de armazenamento. Nesse momento o filme se esbarra com o rumo que a tecnologia tomou nas últimos duas décadas. Em 1995, os 320 GB que Johnny deveria transportar, representava um grande valor na época, porém hoje em dia conseguimos armazenar facilmente grandes quantidades de dados em pequenos dispositivos de forma segura que não precisam ser instalados em nossos cérebros.

Johnny se conectando a Internet.

É claro que sem o elemento invasivo da tecnologia no corpo físico, parte do cyberpunk estaria descaracterizado, perdendo seu charme. Mas esse tipo de comparação tecnológica é inevitável, já se foram 20 anos desde o seu lançamento. Naquela época a internet apenas engatinhava e outros aparelhos demonstrados no filme eram pura ficção.

Para quem acompanhou a evolução tecnológica das últimas décadas, assistir ao filme pode até ser nostálgico, principalmente com as cenas de computação gráfica simulando o ciberespaço, tão anos 90… Quem nasceu na era virtual, talvez pode ter a impressão de que o filme envelheceu mal, não encontrando elementos que reforcem a visão de uma ficção científica tão tecnológica, afinal nem chegamos em 2021 e já temos praticamente tudo que se passa no filme.

Com o desenvolvimento da trama, novos personagens são apresentados. Eles demonstram diversos elementos do universo de Gibson. Desde as corporações, passando pelos mafiosos, pessoas infectadas pela SAN (Síndrome da Atenuação Nervosa) que tentam seguir suas vidas, rebeldes que lutam contra a opressão das corporações, um médico que questiona a incorporação excessiva da tecnologia em nosso cotidiano, até chegar a um elemento único na trama, que rouba a cena: o Pregador das Ruas, interpretado por Dolph Lundgren, que não passa de um assassino cheio de implantes biomecânicos e uma distorcida moral religiosa.

O Pregador das Ruas coletando informações.

Quando Johnny descobre que o conteúdo em sua cabeça é a cura para a SAN, o desfecho faz ele se transformar em uma espécie de salvador acidental da humanidade. Isso sempre me fez pensar: Johnny se converte de egoísta para algo próximo de um herói. O personagem Takahashi se arrepende das coisas que fez. Jane passa de uma exploradora mercenária para um personagem fundamental para convencer Johnny a fazer a coisa certa. Não seria esse um final postcyberpunk? Pessoalmente, não concordo com essa separação de cyber e post, mas mesmo assim, é algo para se pensar.

O elenco chama muita atenção pela mistura de grandes nomes do cinema e da música (Henry Rollins e Ice-T). Entretanto, o filme fracassou nas bilheterias, e a razão disso é discutida até hoje. Críticos apontam em várias direções, como o diretor estreante de longas, Robert Longo e as atuações de Keanu Reeves, que recebeu indicação ao Framboesa de Ouro. William Gibson diz que a culpa foi dos cortes realizados pelo estúdio. Atualmente, diz-se da obra não corresponder tematicamente a época na qual foi lançada, pois o grande público não era familiarizado com tais conceitos tecnológicos, tornando momentos chaves do filme, um tanto abstratos.

Internet 2021.

Pessoalmente, considero que o filme retrata muito bem os aspectos da desigualdade que o cyberpunk representa. A cena da manifestação nas ruas, seguida pelo sossegado saguão de hotel de luxo, é uma das minhas preferidas exatamente por isso. Outro momento, é quando Takahashi se comunica por vídeo com o Pregador de dentro do prédio da Pharmakon, num ambient clean, logo em seguida Johnny e Jane aparecem nos subúrbios da cidade de Newark, rodeados de lixo e pessoas doentes.

Por outro lado, as cenas ação deixam muito a desejar. São tão mal elaboradas, que se torna estranho assistir o mesmo ator que protagonizou Matrix, realizar movimentos tão toscos (isso, não levando em consideração a ordem cronológica de lançamento dos filmes). Para mim, o resultado final é o melhor filme com ambientação puramente cyberpunk que já assisti.

Jane, a guarda-costas de Johnny.

Indicação de resenhas:
O blog Filmes Para Doidos, faz uma análise bastante voltada para o aspecto cinematográfico de Johnny Mnecmonic:

http://filmesparadoidos.blogspot.com.br/2009/03/johnny-mnemonic.html

Já o artigo de Natália Damasceno, contempla uma visão mais filosófica do filme, envolvendo seus aspectos tecnológicos e ciberculturais:

http://petufshistoria.blogspot.com.br/2010/12/johnny-mnemonic-ou-maldita-civilizacao.html

Curiosidades:

  • Para atrair o público asiático, a versão japonesa do filme contém 11 minutos a mais, que exploram melhor o ator Takeshi Kitano;
  • A personagem Jane não existe dentro da história de Gibson, ela foi introduzida para substituir Molly Millions, pois o direito de uso da personagem havia sido comprado por outro estúdio não filiado a produtora do filme;
  • Existem máquinas de pinball com o desing da arte do filme, para vê-las clique aqui;
  • O filme recebeu um desnecessário subtítulo no Brasil: “O Cyborg do Futuro”.

Trailer do filme:

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2 comentários sobre “Johnny Mnemonic (1995)

  1. Pingback: Dos livros para as telas: Johnny Mnemonic | Cyber Cultura

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