Deus Sonha O Homem

Sinopse:
Primeira parte da série cyberpunk REQU13M. Deus Sonha O Homem antecede o conto Dies Irae. Lynx, em seus primeiros anos como hacker, não tem experiência o suficiente para saber que esse é um mundo sem recompensas. Para financiar seus vícios, ela aceita um trabalho obscuro, que vai arrastá-la pelas ruas sujas da cidade, confrontá-la com snipers e enigmas e mostrar que confiar num estranho pode ser tão perigoso quanto confiar no que seus sentidos dizem ser a realidade.

Lidia Zuin é autora, pesquisadora, jornalista e futuróloga. Seu nome é referência quando falamos de cyberpunk e divulgação científica.

Já tendo lido Dies Irae, a experiência que segue apresenta um pouco menos de intensidade na velocidade da narrativa, talvez por passarmos do formato de conto a noveleta. Mas o que me causou estranhamento foi o tom do narrador, que se mantém mais distante, ainda que acompanhando somente os passos de Lynx.

Sendo a primeira parte da trilogia, é de se esperar que ela desenvolva o worldbuilding preparando o campo para o leitor. A maior parte dessa relação vem através da tecnologia, mas a maneira como ela é apresentada merece ser discutida: as descrições feitas pelo narrador, em alguns momentos, são transmitidas de maneira bem direta e explícita, nem sempre havendo o emprego dessas descrições, ou alguma ilustração entre elas e os personagens, gerando, assim, um pouco de infodump. Mas como disse, isso acontece apenas em alguns momentos, em outros temos descrições primorosas.

“(…) o wifi não era eficiente o bastante para atender às suas necessidades. Por isso, preferia a maneira rústica e, assim, transformava seu apartamento num absurdo aquário onde serpentes de pele de borracha preta se sobrepunham e se estendiam num vazio de poeira e abandono.”

Deus Sonha O Homem

Assim como no conto que a procede, há muitas cenas de ação e perseguição. Mas a noveleta também entra de cabeça na questão tecnológica, principalmente as que permeiam a vida da hacker, ou seja, consoles, implantes, programação de máquinas, conexão e redes de Internet, que aqui é chamada simplesmente de “Rede”, enquanto o submundo virtual dos hackers é denominado de “Movimento”, que seria o equivalente a parte da Deep/Dark Web onde são encontrados serviços para hackers, crackers e outras ilegalidades virtuais.

A história tem seu primeiro terço dedicada a explorar uma situação em realidade virtual e com ela aprendemos seu funcionamento também. Mas a protagonista cai em uma armadilha enquanto está conectada. Após isso, tudo se torna confuso e ela não consegue discernir o real do virtual, tornando essa primeira parte da trilogia em uma viagem à bad trip de Lynx, que rapidamente se apresenta como uma clássica personagem cyberpunk. Marginalizada e alienada pela tecnologia, quando não está conectada à Rede, usa drogas para lidar com a realidade.

A edição da obra mais uma vez peca no quesito editorial, deixando passar erros de digitação e um pouco de infodump. Se fosse uma obra independente, eu seria mais compreensivo com essa questão. A única coisa que fica realmente nebulosa, é sobre as pessoas escolhidas pelos Rivetheads para produzir snuffs, pois no conto dizia-se serem grandes políticos e pessoas importantes, mas em Deus Sonha O Homem é dito o contrário.

*Obs.: Esse título está indisponível para compra no momento. Há possibilidade da trilogia REQU13M receber uma nova edição em 2020. Caso isso aconteça, esse post será atualizado.

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Akira, o protótipo não lançado para o Mega Drive

Divulgado no final do ano de 2019 no Hidden Palace (uma comunidade dedicada à preservação do desenvolvimento de mídias para vídeo games, tais como protótipos, hardware, código-fonte e tudo mais que envolva sua memória), o lendário protótipo da adaptação de Akira finalmente está disponível para os fãs.

Originalmente produzido em 1993, pela desenvolvedora Black Pearl Software, sendo revelada ao público em uma demo no evento Summer Consumer Electronic Show (SCES) em 1994 e com a pretensão de ser lançado em 1995, o jogo Akira acabou sendo cancelado por desinteresse da diretoria da empresa que, mais tarde, fundiu-se a desenvolvedora original do game. Além, é claro, como é de se esperar, por problemas financeiros. O jogo também era planejado para outras plataformas, porém todo o desenvolvimento foi interrompido.

Pelo protótipo é possível acompanhar um fator muito interessante para a época, que se trata das diferentes mecânicas de jogo, sendo necessário jogar com mais de um personagem e em diferentes modos, alternando entre corrida com motocicleta, primeira pessoa (com direto a usar os poderes telecinéticos/psíquicos de Tetsuo) e em modo de plataforma, tanto se locomovendo a pé quanto em veículos voadores. Essa variedade de opções e jogabilidade demonstra como o game pretendia explorar toda a experiência visual do anime.

É possível baixar a ROM do protótipo e se divertir um pouco no emulador, porém com grandes limitações e bugs. Há quatros fases jogáveis, na quinta ocorre um travamento que terminar por encerrar a experiência do jogo. No menu é possível ouvir uma extensa trilha sonora que, infelizmente, mal chegou a ser usada. O destaque fica para a bela abertura, já que a experiência com o jogo se torna difícil pela quantidade de bugs.

Esse incrível ressurgimento do protótipo para o Mega Drive traz à tona o passado do mundo dos consoles, jogos e de Akira, que até hoje não recebeu uma adaptação para um jogo de maior sucesso.

Para fazer download da ROM, basta acessar o link do protótipo no Hidden Palace:
https://hiddenpalace.org/Akira_(Prototype)

Deixo abaixo dois vídeos para quem busca mais informações. O primeiro do Canal WarpZone, contendo mais informações sobre o motivo do desenvolvimento jogo ter fracassado e o segundo com um extenso gameplay que explora todas as possibilidades do protótipo.

Canal WarpZone

Gameplay

Dies Irae

Sinopse:
O conto narra as desventuras de Lynx, hacker perseguida por uma perigoso grupo por ter divulgado informações sigilosas. Haverá amanhã para uma garota hedonista e sem medo de viver intensamente?

Autora, pesquisadora, jornalista e futuróloga, Lídia Zuin é referência quando falamos de cyberpunk e divulgação científica. Mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo, Lídia é doutoranda em Artes Visuais Universidade Estadual de Campinas.

E por que a considero uma referência? Em todos esses anos que venho acompanhando tudo o que tange o cyberpunk e a cibercultura, seu nome é uma constante. E não me refiro somente as pesquisas acadêmicas, seu trabalho também é encontrado em artigos de diversos sites (Neon Dystopia, O Futuro Das Coisas, UOL Tab, Folha de S. Paulo) abordando ficção científica dentro dos mais variados temas (jogos, música, filmes, literatura, política, medicina), além de ter presença em palestras (FLIP, Roadsec, TED Talks). O conteúdo desenvolvido por ela tem uma tremenda importância para quem pesquisa nessa área.

Lídia Zuin

Dies Irae (do latim, Dia de Ira) é um conto dentro do universo da trilogia REQU1EM, mas que foi lançado originalmente para a antologia Imaginários 3 (Editora Draco, 2012). Cronologicamente, o conto se encaixa entre os volumes 1 e 2. Porém, não há necessidade de se ler na ordem cronológica ou na ordem de lançamento. Isso vai depender do que lhe agradar mais, mas na minha opinião, a ordem cronológica seria a melhor escolha.

Como meu primeiro contato foi por meio do conto, achei-o instigante suficiente para me fazer buscar pela trilogia. Porém, detalhar aqui um conto tão pequeno, seria revelar mais spoilers do que o agradável. Basta dizer que [a protagonista] Lynx está sendo caçada após hackear uma gangue.

Apesar de curto, o conto é capaz de entregar bastante sobre o futuro que nos apresenta. Porém alguns detalhes que dizem muito sobre a sociedade desse futuro próximo necessitam de um certo conhecimento prévio, pois há muitos elementos que fazem parte do submundo industrial, gótico, clubber e BDSM.

“A pressão contra as pálpebras fazia milhares de brilhos de neon surgirem na penumbra.”

Dies Irae

Em Dies Irae, a autora nos apresenta um mundo de sensações. A linguagem de Lídia merece uma atenção especial, pois ela é bastante crua, até um pouco grossa, como se houvesse uma densa camada sobre o texto. Também é notável a influência de William Gibson quando se faz uma aproximação entre os textos: o narrador em terceira pessoa que não é impessoal, a maneira como são jogados termos referentes a tribos urbanas, palavras em outros idiomas usadas sem medo. Tudo isso torna a linguagem interessantemente moderna, como se espera que uma ficção científica cyberpunk seja. Mas ao contrário de Gibson, Lídia não se perde em descrições de marcas, cores e tecidos de roupas. A autora apenas coloca o essencial, tornando a leitura muito mais agradável e deglutível. Exceto pelos momentos em que faz uso de adjetivos consecutivos.

Mas nem tudo são flores. O e-book da minha resenha foi lançada pela Editora Draco em 2012. Devo dizer que a editora pecou com o seu serviço de edição. Muitos erros passaram pela revisão: erros na digitação, vírgulas inseridas sem espaços entre palavras, falta de ponto entre orações, vírgulas perdidas entre dois espaços e um underline que deveria ter sido um travessão. O texto não perde o sentido, mas é impossível não notá-los. Também gostaria de ressaltar a capa. Eu adoro capa simples e as da trilogia REQU13M são muito agradáveis, mas Dies Irae não compartilhou dessa sorte. Apesar da tentativa de mantê-la dentro da inspiração cibercultural, com o uso de pixelização e um fundo de código binário (que mal se enxerga), ela não é chamativa.

“Mas nada é realmente perdido na internet. Sites de louvor e de ódio a essa tal de Lynx continuariam a brotar como gritos silenciados em forma de bits e byts.”

Dies Irae

Voltando ao universo de REQU13M, Lídia demonstra ter um bom controle sobre a criação dos personagens. Acho que a maneira mais fácil de notar isso não é através da protagonista, mas pelo secundário, Lohanna (Eichi T-Emy Elle). Sua aparição é breve, mas sua construção é tão eficaz que chega a roubar a cena.

O final é um tanto abrupto, mas tratando-se de apenas uma passagem pela vida da protagonista e sabendo que há um antes e um depois, é compreensível que seja assim. Ao fim, também há um trecho de uma música da banda Combichrist, que ao meu ver e como fã da banda, tem tudo a ver com a ambientação do conto.

*Obs.: Há possibilidade do conto receber uma nova edição em 2020, assim como a trilogia REQU13M. Caso isso aconteça, esse post será atualizado e os links também.
Onde adquirir:
E-book na Amazon: https://www.amazon.com.br/Dies-Irae-Lidia-Zuin-ebook/dp/B0091VC566
E-book na Kobo: https://www.kobo.com/br/pt/ebook/dies-irae

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#Jogo: Ghost In The Shell: Stand Alone Complex (2004)

Lançado para Playstation 2 no ano de 2004, Ghost In The Shell: Stand Alone Complex nos leva ao mundo ação e investigação da série (sim, da série, não do filme). Passado no ano de 2030, sua trama se encaixa entre a primeira e a segunda temporada. Sendo, portanto, um spin off transmídia desse universo criado por Masume Shirow,

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O jogo segue o clássico formato de tiro em terceira pessoa. Os cenários são fechados e intuitivos, exigindo de muita movimentação com saltos e impulsos para alcançar certos lugares e avançar pelas fases. Como a primeira missão não funciona de tutorial, é possível passar por um treinamento antes. Cada nível tem um personagem específico para jogar, variando entre Motoko Kusanagi,  Batou e Tachikoma. Cada qual acompanhado de movimentos e golpes próprios.

Um problema notável do game é falta de inteligência dos oponentes, que raramente representam alguma dificuldade ao avanço da missão. A distância é o principal fator para determinar isso. Com uma distância adequada, é fácil se esconder e matar seus inimigos. Lhes falta capacidade para saírem de suas trajetórias e avançar contra o jogador, mesmo quando estão alerta de perigo.

A variação de armas é razoável, suficiente para agradar e se adaptar a diferentes situações. O destaque fica para os golpes de luta. A variação é minima, porém elas terminam com uma finalização em câmera lenta, dando um belo efeito visual. Além disso, é possível hackear certos inimigos, controlando-os. Mas o método utilizado é um tanto longe da realidade, sendo necessário acertar uma combinação de engrenagens para ter controle do seu alvo. Apesar desse detalhe, é uma atração legal e que combina (para não dizer essencial) com o universo de GITS.

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Um ponto importante a ressaltar é a jogabilidade. Como muitos jogos já haviam explorado esse tipo de movimentação em cenários tridimensionais, com saltos e tiros, GITS acaba não acrescentando muita coisa nesse sentido. Mas o jogo tem um ponto positivo ao permitir replicar o famoso salto da Major no primeiro filme e também a camuflagem termo-óptica. Porém, ele não alcança a graciosidade de títulos contemporâneos a sua época, como Prince Of Persia: The Sands Of Time, por exemplo. A existência de um botão específico para realizar ações, como se pendurar, se agarrar, subir e descer escadas, é um mau sinal para a jogabilidade, faltando “inteligência” nos movimentos e na interação com o cenário.

Apesar de ser um jogo de ação, há espaço para muita história. E não se trata apenas do enredo (que envolve uma investigação de tráfico de armas, terrorismo, a morte de uma testemunha e arroz – sim, arroz!), pois existe no menu a possibilidade de acompanhar todas as comunicações entre os personagens e checar uma lista de palavras que funciona de referência para compreender trama, a exemplo da cartilha terrorista em retaliação ao ministro. Entretanto essa riquíssima narrativa requer muito tempo e conhecimento em alguma língua estrangeira.

Ainda sobre as comunicações entre os personagens, por mais que elas ajudem a dar uma dinâmica no decorrer das ações, por vezes elas ocupam um espaço grande de visão ou travam o jogo até que acabem. Isso força um pouco o jogador a se prender aos acontecimentos, mas seu uso excessivo num jogo de ação acaba sendo incômodo.

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Sobre os gráficos não há muito a se comentar 15 anos após o lançamento do jogo. Quem já viu os gráficos do Playstation 2 sabe do que estou falando. A fotografia tem uma forte predominância da cor cinza, resultado dos cenários urbanos onde quase tudo é metal e concreto. Teria sido bom ver mais cores no jogo, pois essa monocromia se torna cansativa. É difícil evitar comparações, ainda mais quando o jogo tem um visual menos cyberpunk do que as outras mídias onde Ghost In The Shell apareceu. O destaque fica para o combate final por causa da sua semelhança com o filme e dos questionamentos filosóficos.

Após completar o modo campanha, é liberado acesso a algumas opções, como roupas diversificadas, munições e mais personagens para o modo multiplayer. Ghost In The Shell: Stand Alone Complex recebeu uma continuação homônima para PSP (PlayStation Portable) no ano de 2005, que conta com alguns diferenciais, como visão em primeira pessoa e a companhia de Tachikoma, que pode tanto receber comandos quanto ser controlada. O jogo do Playstation 1 de 1997 não tem relação com os demais, aparentemente.

Para quem se interessa em jogar, é possível rodar Ghost In The Shell: Stand Alone Complex nos emuladores de Playstation 2. Obviamente haverão algumas perdas de qualidade, mas nada que mudar algumas opções de renderização (renderer) não ajude a melhorar um pouco isso.

Ficou interessado? Assista ao gameplay:

#HQ: Acelera SP

Sinopse:
A história se passa na grande São Paulo, alguns anos no futuro, no qual as políticas neoliberais se tornaram hegemônicas e todos os serviços públicos nessas cidades foram privatizados ou estão em processo de privatização. Acompanhando o deslocamento dos personagens pela grande São Paulo, descobriremos como eles vivem (ou sobrevivem) em um mundo onde não existe mais seguridade social pelo Estado. Quem manda de fato são as corporações e as poucas famílias abastadas que são favorecidas por leis, políticas e práticas de concentração de renda, enquanto a maior parte da população vive na miséria.

Fruto de um crowdfunding realizado no final do ano de 2017, Acelera SP foi publicado no começo de 2018 e traz consigo uma série de críticas políticas e sociais contemporâneas. Digo contemporâneas sem exagero, pois estamos falando de temas que alardeiam nosso cotidiano desde o começo da polarização política atual. Isso se torna bastante claro já no título: “Acelera>>SP” era o slogan usado por João Dória à prefeitura de São Paulo, conhecido por promover ideias neoliberais em sua campanha. Vale lembrar que Dória se tornou réu por improbidade administrativa devido ao uso do slogan.

O projeto é de autoria de Cadu Simões, um historiador graduado e que atua como quadrinista desde os anos 2000. Detentor de um prêmio HQ Mix, Cadu é mais um guerreiro que atua no mercado independente de quadrinhos e se publica pela Internet de forma gratuita e também através de crowdfunding, tendo como sua obra mais conhecida o comic “Homem-Grilo”, além de ter desenvolvido outra HQ com influências cyberpunk, a “Nova Hélade”.

Já o ilustrador Juliano Kaapora é cursado em Ilustração e História em Quadrinhos pela Quanta Academia de Artes. Desde de muito cedo, Juliano trabalhou em diversos segmentos com suas ilustrações e tem como destaque sua participação em obras como “O Guarani” (coleção Ópera em Quadrinhos, Editora Scipione) e “O Vira-Lata” (revista Imaginários, Editora Draco).

Juliano Kaapora e Cadu Simões.

Pelas temáticas abordadas, é de se imaginar que há uma forte opinião política entremeada a história de Acelera SP. Cadu Simões, em momento algum, tenta esconder sua inclinação política e faz da obra um grande debate ao explorar as condições dos personagens que habitam essa grande São Paulo futurista. Há também (ao meu ver) uma crítica ao modelo de arte tornado mero produto de consumo, através de uma personagem artista e representante da socialite.

O desenvolvimento da trama se foca na locomoção de um dia na vida de Amaynara, Marcos, Rodrigo e Isabela e tem como plano de fundo a atual situação dos povos indígenas brasileiros que restaram e formaram as ZADs, Zona Autônoma a Defender.

Por ser um one-shot, Acelera SP entrega uma história rápida e com final fechado, tendo em suas últimas duas páginas uma entrevista em formato web sobre as ZADs. Apesar desse interessante formato, que esclarece questões sobre o surgimento e funcionamento desses locais, a HQ já havia deixado boa parte delas entendidas e outra subentendida. Isso criou uma redundância (na minha opinião, é claro), que teria sido melhor aproveitada explorando os personagens em mais páginas. Em uma história pequena e fechada, o uso de duas páginas acaba fazendo diferença.

A trama consegue costurar a história de todos os personagens e usa a locomoção urbana como agulha. Não me recordo de ter lido algum outro conteúdo tão focado em um aspecto e isso foi um atrativo interessante. Ainda mais quando as referências aqui são tão atuais: Uber, carros autônomos e os tão aguardados carros voadores (quadricópteros, apesar deles não aparecerem nas ilustrações).

Ainda sobre referências, há algumas detectáveis, por exemplo o estilo de Amaynara, que lembra o visual de muitas personagens femininas do cyberpunk. Em uma cena, há uma pichação na parede escrito “Akira”, que também se mostra influente na motocicleta de Amaynara e que também compartilha certa semelhança com a motocicleta do filme Tron (2010). Em outra pichação, lê-se “Nova Hélade”, que ao pesquisar, se revelou ser outra obra influenciada pelo cyberpunk do autor Cadu Simões.

As características cyberpunk no universo de Acelera SP não estão focadas no elemento cyber, portanto não espere por implantes cibernéticos e inteligências artificiais. É o punk que move a história em uma luta contra o sistema. As desigualdades sociais permeiam cada página, demonstrando ao ponto que a grande São Paulo chegou, ao ter se reduzida a uma corporatocracia (ou corporocracia), onde os governantes foram trocados por administradores e CEOs. A degradação do meio ambiente e a luta pela sua conservação também entram nesse mérito. Sem acrescentar qualquer tecnologia futurista, a HQ revela como o cyberpunk, que nasceu como um futuro próximo, é um retrato da nossa atualidade. Por isso, eu vejo a obra como um postcyberpunk (ou nowpunk?) que flerta com o nosso quase ignoto tupinipunk.

Como eu adquiri minha HQ através do financiamento do coletivo, ela veio acompanhada de dois postais, um marcador de página e os panfletos sobre as outras obras do coletivo Petisco. A capa é a única parte colorida, o miolo é todo em preto e branco, enquanto as últimas páginas, que se dedicam a entrevista, lista de apoiadores e estudos, recebem uma escala de cinza. Não encontrei qualquer defeito em minha edição, apenas ressinto tê-la recebido quando já havia parado com minhas atividades aqui no blog, demorando quase dois anos para escrever essa resenha.

Acredito que vale comentar que a obra se encontra registrada em Creative Commons. A arte de capa é assinado por Gil Tokio e parte das ilustrações são de autoria de Sam Hart. Na página do Catarse é possível encontrar mais informações sobre o universo de Acelera SP, que complementam a história de cada personagem.

Onde adquirir:
Loja Petisco:
https://petisco.org/loja/

E para finalizar um vídeo com os artistas para o Canal Papo Zine:

HD Corrompido

As vezes, nossa vida é capaz de mudar de maneira tão brusca e tão rápida, que ficamos perdidos. Planos, metas e objetivos, tudo isso se perde. Daí temos que buscar um novo caminho, não é?

Eu já não sabia mais e continuo sem saber se irei retomar as postagens por aqui. A intenção era simples: ser um portal sobre a cultura cyberpunk, buscar todos os ângulos possíveis e, o mais importante, discuti-los. Minha inspiração inicial, o CyberPunk Review, ficou um longo tempo desativado e foi sua ausência que me fez criar o Cyber Cultura. Ainda sinto vontade de continuar, mas não como antes. Por isso, resolvi tentar. Porém, com uma imensa dificuldade, que me obriga a reestruturar a frequência e o conteúdo das postagens.

Tentarei dar preferência a resenhar livros e HQs nacionais. Contudo, o pequeno networking que havia desenvolvido, desapareceu. Mas tudo que é bom acaba.

Espero que possamos nos ver em breve aqui novamente!

Heineken: The Wall – Uma propaganda cyberpunk

Assim como em outras propagandas abordadas aqui no blog, a Heineken, patrocinadora da UEFA Champions League, produziu em 2017 uma série de comerciais para a televisão, entre eles está The Wall, estrelado pelo brasileiro Ronaldinho Gaúcho.

Em um futuro altamente tecnológico, o craque aparece fugindo das autoridades para, ao final, reencenar um marcante gol em sua carreira (Barcelona e Werder Bremen, na temporada 2005/2006). A ambientação e efeitos especiais não ficam devendo nada para grandes e recentes produções, como Ghost In The Shell (2017) e O Vingador do Futuro (2012). Assista ao comercial:

Sobre blogs e lobos

À medida que o número de resenhas por aqui vai aumentando (ainda que num ritmo bastante lento), eu acabo me deparando com mais e mais resenhas ruins pela Internet. Como leitor, estou sempre interessado por discussões acerca das obras que consumo e sempre vou atrás de opiniões e interpretações diferentes da minha. Porém vivo me deparando com algo assustador: resenhas que não dizem nada.

Em pleno 2018 já era para eu ter me acostumado com o fato de que a Internet é um grande espaço de desordem, caos e etc. Mas ainda assim é notável como algumas coisas procedem e gostaria de compartilhar um pouco do que me “assombra” em relação a pessoas que se dispõem a escrever um texto e postar sua opinião para que outras leiam.

A coisa mais notável nos últimos tempos é a questão da plataforma. Existem tantos sites diferentes para compartilhar conteúdo, porém na maioria das vezes eles são usados da mesma maneira, ou seja, sem um crivo de “como falar sobre algo” em diferentes lugares. Um exemplo simples, o famoso textão de Facebook. Apesar do seu alcance como ferramenta de interação, para textos longos acaba sendo uma porcaria. Não é confortável ler por muito tempo no espaço reservado ao texto no layout do Facebook. Tudo bem que na versão mobile isso acaba sendo menos incômodo, mas ainda assim continua não sendo o melhor lugar para se ler algo longo. Se for para divulgar um texto comentando uma obra pelo Facebook, acredito eu, que vale muito mais a pena ser sucinto, pois é fácil perder o interesse e realizar apenas uma “leitura dinâmica” para saber resumidamente o que estão querendo dizer.

Se o Facebook já não é um lugar exatamente confortável para realizar leituras, o que dizer do Instagram? Provavelmente é o pior lugar para despertar interesse sobre um texto, afinal, é um aplicativo pensado para promover fotos. Os textos não passam de complemento dentro dessa ferramenta. As páginas do Instagram, para quem abre algum link no desktop, são uma bela porcaria para realizar leitura, tornando-as algo quase que exclusivo para ser desfrutado na versão mobile. Mas que assim como o Facebook, passa longe de um conforto para textos longos. Resumindo, o instabooker tem grande potencial para ser um bom fotógrafo.

Já o YouTube, ou melhor dizendo, os canais de booktubers, conquistaram um espaço interessante e ganham cada vez melhores produções. Vejo bastante trabalho bem feito nessa plataforma e é a que mais se adequou ao seu formato, o vídeo. O que quero dizer é que vídeos curtos e médios que colocam o espectador dentro de uma informação ágil me parecem a melhor evolução possível dos antigos blogs literários. Mas não pense que não há uma perca, pois também percebo a falta de certa profundidade nesse formato de resenha, principalmente quando os booktubers passam maior parte do tempo falando do enredo do que resenhando. Já parou para pensar que contar a história de um livro não é o mesmo que resenhar? Pois é, parece que muita gente ainda não se deu conta disso.

E qual a vantagem dos blogs? A resposta é simples: a organização do espaço de postagem. Em quase todo blog gratuito é possível organizar o tamanho da fonte, a posição do texto dentro do layout do site, a cor ou imagem de fundo, assim como a cor da fonte. Sem contar que é fácil adicionar fotos em posições estratégicas, inserir símbolos, hyperlinks, usar recursos html, etc…

Agora continuando com outra questão essencial: por que leitores também resenham? Acredito que a maioria sente alguma empolgação após finalizar uma leitura e isso os compelem a escrever qualquer coisa. Se por um lado isso é legal, por outro, estamos acumulando uma certa quantidade de informação que dificulta encontrar uma opinião que realmente diga algo sobre uma obra. E aqui vai um óbvio exemplo: Skoob. Basta entrar em algum best-seller, de preferência algum que acrescente um pouco de estilo e técnica narrativa, como Clube da Luta (1996), e você vai entender onde quero chegar. Isso me deixa um pouco preocupado, imaginando se existe ou não um amadurecimento do leitor após encarar uma obra.

Mas voltando ao Skoob, já encontrei muita resenha onde alguém apenas copiou e colou a sinopse do livro. Ou então, leitores que não compreenderam certas questões conceituais básicas que compõe a trama/projeto de alguma obra. Mas isso não é um problema localizado, o mesmo tipo de informação (ou chame isso de resenha se preferir) na Amazon e blogs. Um exemplo interessante foi um texto postado num espaço dedicado a resenhas, mas que só continha frases de efeito ditas pelos personagens.

Acredito que exista um motivo para resenhar que não seja a euforia de acabar um livro ou um quadrinho. Ocasionalmente me deparo com editoras que compartilham resenhas de obras que elas publicaram e percebo que o que elas receberam, na verdade, foi apenas uma sinopse de algum instabooker, ou o resumo da trama principal por um booktuber. Fico decepcionado nesses momentos, pois não era esse o tipo de informação que eu buscava.

Não é difícil parar um pouco para estudar o meio editorial. Tenho feito isso nos últimos anos e foi algo que me ajudou imensamente ao analisar um livro. Existe uma rede enorme de podcasts, grupos virtuais e autores dedicados a fomentar a literatura. Basta ter interesse para se tornar um leitor/resenhista “melhor”.

Podcast O Drone Saltitante: Carbono Alterado & Alamut

Marcando o retorno da dupla Diana Ruiz e Igor Rodrigues, o episódio lançado em 02/03 abordou o livro Carbono Alterado. Para que mantém o hábito de ouvir podcasts, provavelmente irá gostar da nova abordagem de O Drone Saltitante.

Sobre a discussão acerca da obra postcyberpunk, as opiniões são bastante honestas, pois reconhecem características do livro que pretendo abordar numa resenha após realizar a releitura de Carbono Alterado.

Ep. #127 – Carbono Alterado & Alamut